segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

E se os filmes fossem traduzidos pro "cearês" ??????

Velocidade máxima ---------------------------------------AVUADO !

Os bons companheiros ----------------------------------Os Cumpadi !

O paizão ----------------------------------------------- O Corno Réi !

Eu, a patroa e as crianças ------------------ Eu, a Muié e os Bruguelin !

A morte pede carona ------------- Arriégua Maxo, Tú Vai Papocá Ó !

Ghost -------------------------------------------------------- Visage !

O poderoso chefão ---------------------------------------------Tasso.

O exorcista -------------------------------------- Arreda Coisa Ruim!

Táxi driver -------------------------------------------- O Véi do Táxi.

Corra que a polícia vem aí -------Sebo nas Canela q lá Rem o Ronda!

O senhor dos anéis --------------------------- O Comedor de Baitola.

Janela indiscreta ------------------------------- O Tarado tá te Rendo.

Velozes e furiosos ----------------------- Os Cabra Maxo e Avexado.

Esqueceram de mim! ------------Deixaram o Cumedozin de Rapadura.

Forrest gump -------------------------------------------Diabéisso????

Clube da luta ---------------------------------------- Butiquin da Peia.

Cidade de Deus --------------------------------------------- Canindé.

O que é isso companheiro! ------------- Abéisso Maxo? Tá Vacilano?

A casa caiu. ------------------------------------- Dirrubaro o Barraco.

O fim dos dias ---------------------------------------------- Lascô-se.

Mamma mia ----------------------------------------------- Ô Main !!!

Turista -------------------------------------------- Os Gringo na Praia.

2012 -----------------------------------------------------Doismilidozi.

Guerra dos mundos ----------------------- A Xibata Vai Rolá é Solta !

Assim caminha a humanidade --- Prá Donde Rai Essa Ruma de Gente ?

O justiceiro -------------------------------------------------- Lampião.

João e Maria --------------------------- O Tripa Seca e a Perna Torta.

Homem aranha --------------------------------- Se Caí tá Lascado !!!

No Nordeste se fala assim

 No Nordeste se fala assim
i1

“No Brasil pra se expressar
Há diferenciação
Porque cada região
Tem seu jeito de falar
O Nordeste é excelente
Tem um jeito diferente
Que a outro não se iguala
Alguém chato é Abusado
Se quebrou, Tá Enguiçado
É assim que a gente fala
i2


Uma ferida é Pereba
Homem alto é Galalau
Ou então é Varapau
E coisa ruim é Peba
Cisco no olho é Argueiro
O sovina é Pirangueiro
i3


Enguiçar é Dar o Prego
Fofoca aqui é Fuxico
Desistir, Pedir Penico
Lugar longe é Caxaprego
Ladainha é Lengalenga
E um estouro é Pipoco
Qualquer botão é Pitoco
E confusão é Arenga
i4


Fantasma é Alma Penada
Uma conversa fiada
Por aqui é Leriado
Palavrão é Nome Feio
Agonia é Aperreio
E metido é Amostrado
O nosso palavreado
Não se pode ignorar
Pois ele é peculiar
É bonito, é Arretado
i5


E é nosso dialeto
Sendo assim, está correto
Dizer que esperma é Gala
É feio pra muita gente
Mas não é incoerente

É assim que a gente fala
i7


Você pode estranhar
Mas ele não tem defeito
Aqui bala é Confeito
Rir de alguém é Mangar
Mexer em algo é Bulir
Paquerar é Se Inxirir
E correr é Dar Carreira
Qualquer coisa torta é Troncha
Marca de pancada é Roncha
E a caxumba é Papeira
Longe é o Fim do Mundo
E garganta aqui é Goela
Veja que a língua é bela
i8


E nessa língua eu vou fundo
Tentar muito é Pelejar
Apertar é Acochar
Homem rico é Estribado
Se for muito parecido
Diz-se Cagado e Cuspido
E uma fofoca é Babado
Desconfiado é Cabreiro
Travessura é Presepada
Uma cuspida é Goipada
Frente de casa é Terreiro
i9


Dar volta é Arrudiar
Confessar, Desembuchar
Quem trai alguém, Apunhala
Distraído é Aluado
Quem está mal, Tá Lascado
É assim que a gente fala
i10


Aqui valer é Vogar
E quem não paga é Xexeiro
Quem dá furo é Fuleiro
E parir é Descansar
Um rastro é Pisunhada
A buchuda é Amojada
i11


E pão-duro é Amarrado
Verme no bucho é Lombriga
Com raiva Tá Com a Bixiga
E com medo é Acuado
Tocar em algo é Triscar
O último é Derradeiro
E para trocar dinheiro
Nós falamos Destrocar
Tudo que é bom é Massa
O Policial é Praça
Pessoa esperta é Danada
i12


Vitamina dá Sustança
A barriga aqui é Pança
E porrada é Cipoada
Alguém sortudo é Cagado
Capotagem é Cangapé
O mendigo é Esmolé
Quem tem pressa é Avexado
A sandália é Percata
Uma correia, Arriata
Sem ter filho é Gala Rala
O cascudo é Cocorote
i13


E o folgado é Folote
É assim que a gente fala
Perdeu a cor é Bufento
Se alguém dá liberdade
Pra entrar na intimidade
Dizemos Dar Cabimento
Varrer aqui é Barrer
Se a calcinha aparecer
Mostra a Polpa da Bunda
i14


Mulher feia é Canhão
Neco é pra negação
Nas costas, é na Cacunda
Palhaçada é Marmota
Tá doido é Tá Variando
Mas a gente conversando
Fala assim e nem nota
Cabra chato é Cabulos
o
Insistente é Pegajoso
i15


Remédio aqui é Meisinha
Chateado é Emburrado
E quando tá Invocado
Dizemos Tá Com a Murrinha
Não concordo, é Pois Sim
Tô às ordens é Pois Não
Beco ao lado é Oitão
A corrente é Trancilim
Ou Volta, sem o pingente
Uma surpresa é, Oxente!
i16


Quem abre o olho Arregala
Vou Chegando, é pra sair
Torcer o pé, Desmintir
É assim que a gente fala
A cachaça é Meropéia
Tá triste é Acabrunhado
O bobo é Apombalhado
Sem qualidade é Borréia
A árvore é Pé de Pau
i1


Caprichar é Dar o Grau
Mercado é Venda ou Bodega
Quem olha tá Espiando
Ou então, Tá Curiando
E quem namora Chumbrega
Coceira na pele é Xanha
E molho de carne é Graxa
Uma pelada é um Racha
Onde se perde ou se ganha
Defecar se chama Obrar
i17


Ou simplesmente Cagar
Sem juízo é Abilolado
Ou tem o Miolo Mole
Sanfona também é Fole
E com raiva é Infezado
Estilingue é Balieira
Uma prostituta é Quenga
Cabra medroso é Molenga
Um baba ovo é Chaleira
i18


Opinar é Dar Pitaco
Axilas é Suvaco
E cabra ruim é Mala
Atrás da nuca é Cangote
Adolescente é Frangote
É assim que a gente fala
Lugar longe aqui é Brenha
Conversa besta, Arisia
Venha, ande, é Avia
Fofoca é também Resenha
O dado aqui é Bozó
Um grande amor é Xodó
i19


Demorar muito é Custar
De pernas tortas é Zambeta
Morre, Bate a Caçuleta
Ficar cheirando é Fungar
A clavícula aqui é Pá
Um mal-estar é Gastura
Um vento bom é Frescura
Ali, se diz, Acolá
Um sujeito inteligente
Muito feio ou valente
É o Cão Chupando Manga
Um companheiro é Pareia
Depende é Aí Vareia
i20


Tic nervoso é Munganga
Colar prova é Filar
Brigar é Sair no Braço
Nosso lombo é Ispinhaço
Faltar aula é Gazear
Quem fala alto ou grita
Pra gente aqui é Gasguita
Quem faz pacote, Embala
Enrugado é Ingilhado
Com dor no corpo, Ingembrado
É assim que a gente fala
i21


Um afago é Alisado
Um monte de gente é Ruma
Pra perguntar como, é Cuma
E bicho gordo é Cevado
A calça curta é Coronha
Um cabra leso é Pamonha
E manha aqui é Pantim
Coisa velha é Cacareco
O copo aqui é Caneco
 i22











E coisa pouca é Tiquim
Mulher desqualificada
Chamamos de Lambisgóia
Tudo que sobra, é Bóia
E muita gente é Cambada
O nariz aqui é Venta
A polenta é Quarenta
Mandar correr é Acunha
Ter um azar é Quizila
A bola de gude é Bila
Sofrer de amor, Roer Unha
Aprendi desde pivete
Que homem franzino é Xôxo
i23


Quem é medroso é um Frouxo
E comprimido é Cachete
Sujeira em olho é Remela
Quem não tem dente é Banguela
Quem fala muito e não cala
Aqui se chama Matraca
Cheiro de suor, Inhaca
É assim que a gente fala
i24


Pra dizer ponto final
A gente só diz: E Priu
Pra chamar é Dando Siu
Sem falar, Fica de Mal
Separar é Apartá
Desviar é Ataiá
E pra desmentir é Nego
Quem está desnorteado
Aqui se diz Ariado
E complicado é Nó Cego
Coisa fácil é Fichinha
i25


Dose de cana é Lapada
Empurrão é Dá Peitada
E o banheiro é Casinha
Tudo pequeno é Cotoco
Vigi! Quer dizer, por pouco
Desde o tempo da senzala
Nessa terra nordestina
Seu menino, essa menina!
É assim que a gente fala.”

Fonte: Ismael Gaião da Costa, Condado-PE
Blog Jornal da Besta Fubana 

domingo, 23 de janeiro de 2011

Rio Acaraú-Interiorização do ´Siará´ acompanha roteiro dos rios

A Cidade de Sobral, vista a partir do Rio Acaraú, foi um dos primeiros Municípios a serem formados na região do Vale do Acaraú e à margem do Rio, no processo de interiorização
FOTOS: CID BARBOSA/ACMI-UVA
Diversos Municípios da Zona Norte do Estado do Ceará surgiram e se desenvolveram a partir do "Rio das Garças"

Rio Acaraú. Quando o ilustre Martim fugiu da tribo dos Tabajara, porque Iracema não deveria dormir na sua oca, saiu pelas matas e passou pelas "frescas margens do rio das garças", conforme descreve o escritor José de Alencar no romance "Iracema". "Rio das Garças" é o significado da palavra Acaraú, que nasce da fusão das palavras tupis "Acará" (garça-branca-grande) e "Hu" (água), citado diversas vezes pelo escritor.

A partir da obra de José de Alencar pode-se constatar que a interiorização no "Siará" se deu através de seus rios, tendo o Acaracu, Acaraú ou simplesmente Rio das Garças, uma importância primordial neste contexto. Pero Coelho de Sousa ao chegar ao Brasil, em 1603, para administrar a Capitania do Siará, como era chamada a região correspondente às capitanias do Rio Grande, Ceará e Maranhão, escolheu a foz do Rio Pirangi, hoje Ceará, para se instalar, e depois transferiu-se para às margens do Jaguaribe.


A cidade de Morrinhos preserva-se bem acima do leito do Rio Acaraú que passa pela sua sede. O local é frequentado por lavadeiras, pescadores e banhistas diariamente
Os rios ofereciam água, alimento, lazer e travessia. Desde o seu início, a ocupação do Ceará foi guiada, literalmente, pelos rios e pela atividade econômica. A cultura criatória ou pecuária foi a primeira atividade econômica motora para a ocupação do Estado, entre os séculos XVIII e XIX.

Com o crescimento econômico, surgiram as cidades de Aracati, Sobral, Icó, Acaraú, Camocim e Granja. Conforme conta o coordenador do curso de História da Universidade Vale do Acaraú (UVA), Agenor Soares Júnior, devido à demanda do mercado consumidor litorâneo, "as terras do interior passaram a ser alvos de especulação, produzindo um movimento de interiorização seguindo os principais rios e seus afluentes".

Com esses movimentos, as estradas para o interior da capitania começaram a se delinear, sempre atendendo ao curso dos rios. A ribeira do Rio Acaraú tornou-se estradas naturais perfeitas e propícias para o desenvolvimento cearense. No interior, o cenário também foi tomando forma: ranchos, vendas, bodegas, capelas, igrejas e moradias. A partir daí muitos lugarejos nasceram e deram início à cidades importantes.

Primeiras populações

Para o médico e historiador Barão de Studart, os fundadores e primeiros habitantes de Acaraú foram os pescadores vindos do Sul, atraídos pela fartura dos barcos pesqueiros.

As terras onde hoje se encontra o Município de Marco, antes eram ocupadas por índios, provavelmente os Tremembé. Em Nova Russas, uma fazenda de curtume deu origem ao povoamento e, hoje, cidade. Reriutaba antes fora a Fazenda Santa Cruz. A região era habitada pelos índios Reriú.

Já Santana do Acaraú deve seu nome e sua origem à santa homônima. Em 1626, o frei Cristóvão de Lisboa e sua comitiva passavam pela região, quando foram atacados por índios Tapuio, levando o grupo a refugiar-se nas terras do atual Município. No mesmo ano, a instalação da imagem da santa em um serrote indicava onde seria erguida sua capela. Em Varjota, credita-se o seu povoamento ao Padre Macário Bezerra, da Paróquia do Ipu, também com a construção de uma capela, entre os anos de 1834 e 1840.

"Princesa do Norte"

A origem da "Princesa do Norte", Sobral, tem dois viés. O historiador Agenor Soares Júnior diz que uma delas está relacionada a dois sesmeiros. "Segundo padre Sadoc de Araújo, Sobral teria origem com os descendentes dos sesmeiros Antônio da Costa Peixoto e Leonardo Sá, este último considerado o primeiro povoador da ribeira. Com eles, iniciam-se também doações de terras ao erguimento de capelas nas fazendas de suas propriedades, dando início, a uma lenta constituição de um patrimônio religioso".

A outra inicia com as doações de terras feitas pelo capitão Antônio Rodrigues Magalhães e Quitéria Marques de Jesus, no século XVIII, respondendo ao pedido do padre Lino Gomes Correia. "Casal proprietário da Fazenda Caiçara que, em resposta ao pedido do padre visitador Lino Gomes Correia, doou extensão de terras para a construção de uma igreja matriz que servisse como sede do curato da ribeira do Acaraú, marcando o início do desenvolvimento da região, surgindo um povoado ao redor do templo, atraindo famílias que vinham pela fertilidade da região e pelos serviços religiosos agora mais acessíveis", conta Soares sobre a formação de Sobral.

A partir das doações de terras, o povoamento de Sobral foi dividido em quatro curatos: Amontada, Coreaú, Serra dos Cocos e Caiçara - com a construção de igrejas e capelas neste locais.

"A configuração do povoamento foi produzida de acordo com a criação das capelas erguidas pelos fazendeiros e religiosos, sempre margeando os rios, tornando-se a gênese de várias cidades da região". Hoje, Sobral carrega a responsabilidade de ser um dos principais celeiros da Zona Norte e do Estado na cultura, política, economia e social. Tem o grande desafio, hoje, de recuperar e preservar aquele que foi responsável pela sua origem e seu desenvolvimento, o Rio das Garças.

GEO-HISTÓRIA

Práticas de povoamento ainda são mantidas

Entender o meio ambiente não diz mais respeito somente aos fatores naturais, como flora e fauna. A história também é importante. Um conceito moderno versa sobre uma relação direta entre componentes naturais, socioculturais e atividades humanas. Neste entendimento é que o geógrafo da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), José Falcão Sobrinho, desenvolveu uma pesquisa, resultando em livro, intitulado como "A Geo-história Ambiental do Vale do Acaraú".

Entrevistando e contando a história de 300 agricultores da região - Josés, Joões, Antônios e Marias -, o autor chega a conclusão que "o ontem se repete no hoje". As mesmas práticas adotadas para povoar o Ceará, ainda hoje são mantidas por milhares de famílias no Vale do Acaraú. O latifúndio, concentração de terras, criação de gado, agricultura de subsistência, queimadas, desmatamentos, entre outros danos, continuam na prática das gerações contemporâneas.

Para Falcão, "o relevo contribui com informações a respeito da geo-história natural do Vale do Acaraú", e por isso a fixação das populações nas três áreas da bacia é diferente. No maciço (serras), a permanência de moradia é maior, com 90% dos entrevistados morando há mais de 30 anos no local.

No sertão, a flutuação da população é predominante, devido a questões climáticas e também à propriedade da terra. O autor explica que "no ambiente de maciço houve uma reforma agrária familiar (...). Na superfície sertaneja, há, assim, o contraste de uma área com um processo histórico atrelado ao latifúndio à flutuação da população".

Na ocupação do Vale do Acaraú, muitas questões sociais vivenciadas hoje foram inseridas desde o tempo da colonização e fortalecidas durante os anos. A mão-de-obra esteve sempre ligada a agricultores com baixo índice de conhecimento, fato este que influi na sua condição de vida, conforme descreve Falcão.

A cultura exploratória sempre esteve presente na história do rio, alcançando o ambiente e os que vivem nele. "Tão belo é o Vale do Acaraú, nas suas diversidades naturais e culturais (...). Mas que gera similitudes, fracionadas no intemperismo físico, (...), resseca e desagrega o solo e franje as rugas na face do sertanejo, mas não consegue desagregar a indiferença social", conta o autor.

Ligação

"Os grandes rios, Jaguaribe e Acaraú, constituiram a ligação entre interior e mar"

Agenor Soares Júnior
Coordenador do Curso de História da UVA

"O relevo contribui com as informações a respeito da geo-história do Acaraú"

José Falcão Sobrinho
Geógrafo e Pro-reitor de extensão da UVA

EMANUELLE LOBO
REPÓRTER

Fonte: Diário do Nordeste

Rio Acaraú - Fontes de trabalho e renda

Fim de tarde, as embarcações partem do porto do Acaraú para alto-mar em busca do pescado. Os itens mais apreciados da região são camarões e lagostas
FOTOS: CID BARBOSA

Pesca, criatórios de camarão e de peixes, extração de mariscos e até a apicultura são atividades do Acaraú

Hidrolândia. Numa ocupação de áreas bastantes diferentes, com oscilação de altitude entre o nível do mar e 1.145m acima, na Serra das Matas, a Bacia Hidrográfica do Acaraú possibilita usos diferentes das populações. A mais tradicional, a piscicultura, contribui com milhares de famílias, como a de Edson Saraiva de Sena, conhecido como seu Edinho, morador da Ilha do Ezaú, no Município de Hidrolândia.

A ilha é banhada pelas águas do Rio Acaraú barrada no Açude Araras. Vindo de Mossoró, fez morada no local em 1961. De lá para cá, viveu e sustentou a família com a pesca e a agricultura. Em 2006, a apicultura surgiu como nova oportunidade para a comunidade. Seu Edinho tomou à frente e, com um grupo de moradores, foi capacitado. "Mudou muita coisa. A gente não tinha condição financeira. Trabalhava só para ter o alimento. Mas a apicultura nos dá uma visão muito boa", afirma.

Outro projeto que "bebe" das águas do Acaraú são os Perímetros Irrigados Araras Norte e Baixo Acaraú. O último é responsável por uma produção anual de 24 mil toneladas de frutas, entre as quais, banana, coco, mamão e melancia. Sozinho, o Baixo Acaraú movimenta R$ 2 milhões por ano.

A maior parte da produção deste perímetro vai para o exterior, ao contrário do Araras Norte, que abastece São Benedito, Fortaleza, Sobral, Tianguá e Teresina. Nos dois perímetros são cerca de 650 produtores. Número este pequeno em relação aos outros projetos no Ceará. Para o gerente administrativo-financeiro do Baixo Acaraú, Francisco de Assis, ainda há pouca representatividade no mercado, devido à grande quantidade de frutas de fora, e uma área plantada relativamente pequena.

"Menina dos olhos"

A carcinicultura é, talvez, a atividade mais controvérsia realizada nesta bacia, não eximindo a ação predadora da agricultura realizada às margens do rio, devastando, assim, a mata ciliar, dentre outras. A verdade é que não há meio termo quando se fala no cultivo de camarão marinho: há os que defendem e os que reprovam.

A atividade é realizada na área considerada "a menina dos olhos" do meio ambiente: o estuário. Isso porque é o berço da diversidade. "Ele representa a base de uma complexa cadeia alimentar para o Litoral Oeste do Estado. É o berçário de espécies, produz matéria orgânica e nutrientes para dar suporte à atividade pesqueira e à qualidade de vida das comunidades", explica o professor Jeovah Meireles, do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Ceará (UFC).

A mesma justificativa é dada pelo diretor técnico da Associação dos Carcinicultores da Costa Negra (ACCN), Clélio Fonseca, sobre a escolha da região para a produção de camarões. "A região tem um diferencial do meio ambiente que oferece muitas riquezas naturais", esclarece.

Ele diz que as empresas da região da Costa Negra, zona costeira formada pelos Municípios de Cruz, Acaraú e Itarema, em breve, não utilizarão produtos químicos para o cultivo do crustáceo. "Com a certificação do camarão da Costa Negra, as empresas vão adotar, e algumas já estão adotando, procedimentos únicos e que fazem uso de produtos orgânicos. Não utilizando nenhum produto químico e antibiótico. Tudo isso será banido do nosso modelo de produção".

Em um diagnóstico realizado pelo Ibama, em 2005, entre os principais questionamentos sobre a atividade, estão a ocupação de uma Área de Proteção Permanente (APP); a degradação do ecossistema manguezal, da mata ciliar e do carnaubal; contaminação da água por efluentes; extinção de áreas de mariscagem, pesca e captura de caranguejos; disseminação de doenças; expulsão de marisqueiras e pescadores de sua área de trabalho, dentre outros.

O complexo estuarino, além da importância ambiental, é fonte de renda e alimento para muitas comunidades, como a do Curral Velho, em Acaraú. A área está vinculada aos sistema ambientais que amortecem os danos do aquecimento global, por exemplo. "O manguezal tem a função local de proteger a zona costeira da erosão mais acelerada, e de forma global, captura do dióxido de carbono", explica Jeovah Meireles.

Segundo Clélio Fonseca, há uma preocupação dos produtores da região em manter a qualidade da água e do estuário. "Nós fazemos um auto-monitoramento constante, até porque nós precisamos de um ambiente saudável. Verificamos os parâmetros físico-químicos e biológico da água todos os dias, para não causar dano ao meio ambiente e impacto ao próprio cultivo de camarão", afirmou.

Sustentabilidade

De todos os lados, o discurso para o desenvolvimento é o mesmo: ninguém tem nada contra. Mas há distância entre este processo e a sustentabilidade? Enquanto não há solução à vista, outra ameaça de ocupação chega ao Curral Velho, desta vez com a energia eólica. "Temos o marisco em boa quantidade. Tem gente que vive só disso. E é lá onde querem passar a energia eólica. Não vamos liberar a nossa fonte de alimentação para uma pessoa e a comunidade ficar de mãos vazias", diz o presidente da Associação dos Pescadores e Marisqueiras do Curral Velho, José Edson de Sousa.

A empresa argentina Impsa Wind, ganhadora do leilão realizado em 2010 pela Empresa de Pesquisa Energética, do Ministério de Minas e Energia, vai instalar seis parques de energia eólica em Acaraú. Com as novas usinas, o Ceará passa a liderar área no País.

Segundo o diretor de Engenharia e Construções da Impsa Wind, João Junqueira, os parques serão edificados na Lagoa Seca, Ventos do Oeste, Araras, Garças, Buriti e Coqueiros. "Já realizamos o estudo de impacto ambiental, audiências públicas e já foi aprovado pelo Conselho Estadual de Meio Ambiente (Coema)". A empresa busca, agora, financiamento das obras, que deverão ficar prontas até junho de 2012.

A comunidade do Curral Velho denuncia que, apesar de ter sido convidada para a audiência que discutiu a instalação das usinas eólicas, foram impedidos de participar. "Fomos violentados, impedidos de entrar na audiência", disse a marisqueira Maria do Livramento. (E.L.)

Enquete
Importância

"Quando estamos comendo o camarão da carcinicultura, estamos comendo a biodiversidade, a qualidade da água e outros"

Jeovah Meireles
Professor do Dep. de Geografia da UFC

"90% da mão-de-obra da fazenda de camarão não exigem mais que a 4ª série. A gente ainda emprega a mulher do pescador"

Clélio Fonseca
Diretor técnico da ACCN

CONFLITO

Produzir e preservar

Acaraú. Uma relação conturbada se estabeleceu desde a instalação dos primeiros empreendimentos de carcinicultura (foto)no estuário do Rio Acaraú. De um lado, empreendedores ocupam espaços de preservação permanente com a promessa de geração de emprego e renda.

De outro, a comunidade luta pelo pedaço de chão e de rio, de onde tiram o sustento e o alimento das famílias e da cultura do lugar. "A gente conseguiu o barramento deles aqui. Já foram derramados suor, sangue, lágrima e, graças a Deus, hoje a gente ´tá´ com esse pedaço de chão", afirmou o presidente da Associação dos Pescadores e Marisqueiras do Curral Velho, José Edson de Sousa.

Estudos realizados nos EUA e Tailândia, de matriz economicista, publicados na revista "Science", da American Association for the Advancement of Science, divulgaram os valores das externalidades negativas embutidas na atividade, como a degradação e a poluição. Os custos para a recuperação são altos.

Os valores econômicos gerados por hectare nas fazendas de camarão é de US$ 8,340 e para preservar o manguezal em torno de US$ 823. Os valores sociais calculados pela pesquisa mostram que as externalidades custam um déficit de US$ 5,443 e custos de US$ 35,696 para recuperar cada hectare de manguezal.

"Só se pensa na carcinicultura na geração de emprego e renda, que é um mito. Se gera seis vezes menos empregos do que declaram os empreendedores", diz Meireles.

Segundo Fonseca, na região da Costa Negra são "em torno de três profissionais por hectare, em empregos diretos e indiretos". Mas, o diagnóstico do Ibama define no estuário do Acaraú 0,58 empregos/ha, mais de 3 vezes menos do que diz a Associação Brasileira de Criadores de Camarão. (E.L.)

Demanda Hídrica

190 milhões m³/ano é a demanda hídrica de irrigação da Bacia Hidrográfica do Acaraú, representando 84% do total. Para o consumo humano, a demanda é de 15% e 1% para a indústria.

Fonte: Diário do Nordeste 

Rio Acaraú - Degradação ambiental compromete curso das águas

Em Cruz, o pescador Pedro de Noé de Araújo tentar fisgar algumas piabas para complementar alimentação, mas reclama da salinização da água no trecho que passa na cidade
FOTOS: CID BARBOSA
Com um passado de glória, o Rio Acaraú hoje vive em alerta contra a poluição, desmatamento e extinção de espécies.

Próximo ao porto de Acaraú, na foz do rio, a reportagem flagrou queimadas na mata. A cena foi corriqueira durante o percurso
Monsenhor Tabosa. Um rio morto. Esta foi a constatação que diversos estudiosos, pesquisadores e moradores do Rio Acaraú fizeram sobre ele. O lixo e o assoreamento, decorrente do desmatamento da mata ciliar e da retirada da calha, são os dois "bichos-papões" do rio.

Este gigante de 375km de extensão, no entanto, sobrevive e faz viver muitas famílias, Municípios, animais, matas e a Zona Norte, como pode ser visto no percurso da nascente à foz. Ele é também o principal da bacia hidrográfica que leva seu nome.

Muito lixo e esgoto encontrados embaixo da ponte, em Sobral. Em Monsenhor Tabosa, barragem do rio está desativada
Surge timidamente. A cada gota de água brotada do chão ou caída sobre as pedras próximas às nascentes, o Rio Acaraú vai tomando sua forma. Suas duas nascentes estão localizadas na Serra das Matas, no Município de Monsenhor Tabosa, a 306km de Fortaleza. O local é considerado o ponto mais alto do Estado, com 1.145m de altitude.

O primeiro trecho do leito do Acaraú já foi sinônimo de fartura, devido a sua boa água para cultivo. "Há 40 e poucos anos era tudo lindo. Engenhos de cana, plantações de banana. Hoje não se planta mais nada, ´tá´ tudo devastado", conta o comerciante Fernando Ferreira de Melo. Sua queixa se repete ao longo do Acaraú.

Em estudo realizado pelos professores Marcos José Nogueira de Sousa e Maria Lúcia Brito da Cruz, da Universidade Estadual do Ceará (Uece), "Análise geoambiental e mapeamento das áreas degradadas susceptíveis à desertificação na Bacia Hidrográfica do Acaraú", é constatado que "a especulação imobiliária, o desenvolvimento do turismo e da carcinicultura, o crescimento desordenado dos núcleos populacionais, o incremento agroindustrial, o manejo de irrigação nos agropólos - perímetros irrigados - como Araras Norte e Baixo Acaraú, a incorporação de terras para agricultura, desmatamento, ablação dos solos e a desertificação estão entre os principais problemas de degradação ambiental".

A professora e pesquisadora Maria das Graças Farias Medeiros, filha de Tamboril, testemunhou o tempo de glória da sua região por conta das águas do Acaraú. Agora se debruça em trabalhos de pesquisa e sociais para resgatar o rio. "Quando a tâmara florescia, indicava um bom inverno. A gente tinha um rio verde e hoje é mais plantação de capim", afirmou.

As cenas de devastação não se restringem, no entanto, à plantação de capim. Além dela, queimadas nas margens, retirada desordenada de areia, muito esgoto despejado nas águas do Acaraú preocupam moradores e gestores.

Nos 13 Municípios visitados, a realidade do rio é a mesma, e em alguns casos pioram devido às atividades econômicas e práticas desordenadas. Em Tamboril, na passagem molhada que corta a cidade, a água não passa por lá, decorrente da destruição e também da estiagem do ano que findou.

Em Varjota, onde está localizado o principal reservatório da Bacia Hidrográfica do Acaraú, o Açude Paulo Sarasate, o assoreamento também já prejudica a atuação do açude conhecido como Araras. O reservatório perdeu 15% de sua capacidade devido ao fenômeno. O "Araras" é responsável por tornar o Rio Acaraú perene.

Apesar da grande quantidade de macrófitas no espelho d´água, em Sobral, e uma das margens do rio está coberta de lixo e de esgoto sendo despejado diretamente no Acaraú, o diretor técnico da Saae, José Alberto Rodrigues de Andrade, afirmou que "o esgoto que cai no Rio hoje é das lagoas de tratamento. Não é água potável, mas serve para irrigação".

Com tantas mudanças no trato do rio, a consequência foi quase o total desaparecimento da mata ciliar e dos animais que viviam à sua margem. A vegetação predominante é a Caatinga. A mata ciliar que resta no Acaraú pode ser vista na margem do leito do médio e baixo curso do rio. Durante as cheias, muitos Municípios sofrem com inundações e enchentes devido à descaracterização do leito dos rios. A água vem descendo e, não encontrando seu caminho, ocupa outros espaços.

Quanto aos animais , há registro de papagaios, preás, canários, cutia, guaxinim, onça, raposa, veado, caititu, jacu, seriema, garças, afora os peixes e mariscos. Infelizmente, a incidência desses bichos têm caído a cada dia. "A gente encontra ainda, mas é difícil porque estão todos em extinção", contou o presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Acaraú (CBHA), Alexandre Bessa Cavalcante.

No estuário - espaço em que o rio se encontra com o mar -, preferencialmente nos bancos de areia e canais que fazem intercomunicação com o apicum, a extração de mariscos é feita diariamente pelas famílias. Lá são encontrados unha de velho, búzios (Anomalocardia brasiliana), concha e intã (Donax striatus). (E.L.)

Os problemas encontrados na Bacia Acaraú

A bacia do Rio Acaraú apresenta uma significativa diversidade ambiental, incluindo enclaves de serras úmidas, sertões, vales e ambientes litorâneos. Alguns problemas ambientais e de impactos negativos são comuns a esses ecossistemas. Outros adquirem peculiaridades próprias de cada um.

Dentre os problemas, destacam-se: desmatamentos desordenados, degradação da biodiversidade, erosão dos solos, queimadas, caça predatória, degradação de nascentes fluviais, deterioração do patrimônio natural, desequilíbrios ecológicos, expansão da desertificação, poluição dos solos e dos recursos hídricos, a degradação dos manguezais na área estuarina, degradação das matas ciliares das várzeas e das matas úmidas nas serras; expansão dos processos de desertificação nos sertões.

Eles afligem quase toda a população da bacia e têm sérias repercussões na qualidade de vida das populações rural e urbana. Nas ações a serem empreendidas, as propostas de curto, médio e longo prazos devem ser implementadas para a prevenção e recuperação das áreas mais vulneráveis às secas e à degradação ambiental; estimular a organização dos comitês de bacias para melhor gerir as disponibilidades dos recursos hídricos; incentivar as práticas de educação ambiental; contribuir, enfim, para a articulação entre órgãos governamentais e não governamentais, visando um estilo de desenvolvimento compatível com as necessidades de conservação ambiental e com equidade social desta que é a segunda bacia hidrográfica mais importante do Ceará.

*Geógrafo, doutor em Geografia Física pela Universidade de São Paulo (USP) e professor titular da Uece. Atua na área de Geociências, com ênfase em Geomorfologia. É um dos autores da pesquisa "Diagnóstico Geoambiental da bacia hidrográfica semiárida do Rio Acaraú: subsídios aos estudos sobre desertificação".

*Marcos José Nogueira de Sousa

Fonte: Diário do Nordeste