segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Eu, escritor

Único cearense presente na coletânea "Geração Zero Zero: fricções em rede", Sidney Rocha chamou a atenção da crítica nacional em 2009, como seu livro de contos "Matriuska". Nascido em Juazeiro do Norte e radicado em Recife (PE), o escritor falou ao Caderno 3 a respeito de sua trajetória, sobre a euforia (dos outros) em torno da internet e do desafio de escrever, cada dia, melhor

Sidney Rocha: "É inegável a força dos blogs para os novos autores, há gente que teve seu trabalho reconhecido a partir daí, mas as exceções são tão poucas que não se prestam a nenhuma regra"
Primeiro, gostaria que contasse resumidamente de sua trajetória, desde a saída de Juazeiro do Norte, ao início na literatura.
Destes escritores que o Nelson de Oliveira pinçou para a coletânea ("Geração Zero Zero - fricções em rede"), certamente sou eu o que publicou mais cedo. Publiquei pela primeira vez em 1976, ainda em Juazeiro do Norte. Ganhei o Prêmio Osman Lins de Melhor Romance, com a minha novela "Sofia, uma ventania para dentro", em 1985, já em Pernambuco. Este romance já está na terceira edição, a última pela Iluminuras, editora a quem devo tudo quanto à projeção mais ampla do meu trabalho de escritor. Neste caminho, são 35 anos de aprendizado e de trabalho, de trabalho silencioso. Saí do Ceará na década de 1980. Construí a minha carreira sempre ligada ao mundo editorial. O amor ao livros me fez editor, e fui seguindo. Quando publicado pela Iluminuras, em 2009, com "Matriuska (contos)" é que o trabalho chegou de fato aos críticos mais atuantes. Entre eles, o Nelson de Oliveira. Então me considero sim, dessa "geração", mesmo que não concorde em tudo com o termo.

Hoje em dia há uma infinidade de blogs, é possível editar livros de forma independente, publicar em revistas literárias. Como você utiliza esses espaços? Qual a avaliação do alcance e utilidade das mídias alternativas?
Há muita gente escrevendo. É preciso escrever menos. Cada vez menos. Não estranhe o paradoxo que isto possa parecer. Mas detesto certa histeria e frigidez dos blogs. Não escrevo em blogs. Eles são ferramentas de marketing, vá lá, não mais que isso. Talvez, desses 21 autores da Geração Zero Zero eu seja o mais apocalíptico, ou o menos integrado, para usar mais ou menos os termos de Umberto Eco. Mas é inegável a força dos blogs para os novos autores, há gente que teve seu trabalho reconhecido a partir daí, etc, etc, mas as exceções são tão poucas que não se prestam a nenhuma regra. Já eu, "filho do carbono e do amoníaco", que fui da geração mimeografo, que passei por todas as etapas do cordel, dos fanzines, do livro, enfim, da produção independente, vejo que essas "facilidades" são também as responsáveis por certo descaso com a produção contemporânea, mesmo reconhecendo que há publicações sérias no meio digital. Mas a grande maioria do que se produz para ou na internet (e em papel também, ok) é uma perda de tempo.

A internet substitui o livro?
Você deve estar se referindo ao e-books, não? Tenho o tempo todo comigo um tablet e até leio, a partir dele, livros inteiros. Mas quando chego em casa, olho pras estantes e digo: ainda não inventaram nada tecnologicamente mais evoluído que o livro em papel. Agora, no ponto de vista de conteúdo - não falo de literatura somente - a internet de fato é uma ferramenta inquestionável. Não é à toa que vemos o jornalismo, entendido como era no século XX, ser incapaz de viver sem ela, basta ver a crise dos grandes grupos hoje no mundo. Mas, no Brasil, não seria adequado dizer que ela "substituiu" o livro. Ora, nunca fomos um país de leitores. De livros. Vamos enganar a quem? Então, o jovem leitor brasileiro sequer conheceu o livro propriamente. Agora, o que é preciso é formar leitores. Para mim, é assim: bons leitores reconhecem livros bons. E se chegam ao mercado produtos medíocres, um leitor experiente o reprova. Isto estimula a formação de críticos mais eficientes. Que publicam resenhas em jornais que circulam mais, e aí tudo segue. Então não é internet que substitui livro, como naquele joguinho de pedra, papel, tesoura. É o que nós colocamos na cabeça, que senso crítico temos, para "substituir" (aí, sim) tanta bobagem que a cultura de massa coloca nas nossas cabeças.

Qual o desafio de um jovem escritor atualmente? É publicar, distribuir, é ser lido? Como você se articula para difundir sua literatura?
Acredito que o grande dever de um escritor, de qualquer geração, é escrever bem. Aliás, é escrever melhor. Quantos autores você conhece que são bons? Dezenas? Centenas? Ora, os bons escritores passam dos milhares. Um escritor não pode querer menos senão superá-los. Este é o desafio. Ser lido é uma consequência. Lógico que há muita areia entre isto e aquilo, há o mercado, o marketing, etc, etc, não quero ser tão simplista quanto aos meios, mas um escritor não tem que se preocupar com isto. Tem que escrever hoje melhor que ontem. Para difundir a minha literatura, eu escrevo.

O que você achou da coletânea Geração 00? Você se sente parte real dessa geração?
O Nelson diz bem sobre ela: "é uma antologia dos melhores ficcionistas brasileiros surgidos no início do século 21". Não quer dizer que seja a melhor produção destes autores. Os caras estão vivos, em pleno "work in progress", como diria Joyce. É uma mostra, um tubo de ensaio. Não vão querer que ali estejam paridos os destinos da literatura contemporânea brasileira, né? Li a coletânea recentemente. Há textos de autores dos quais li livros anteriores à antologia, e que gostei, e que não me agradaram na antologia. Claro. E outros de quem jamais abri um livro e de quem corri à livraria pra comprar uma obra, porque gostei do que li na seleção. Alguns guardam alguma afinidade estética comigo. Outros, não. Aliás, outros acho que nunca. Mas estamos em fricções.

Você tem contato com novos escritores cearenses? Quem? Pode comentar algum aspecto, ou autores dessa literatura que surge de 2000 para cá?
Há escritores no Ceará que já há muito vem merecendo uma atenção especial. Marco Leonel, em Juazeiro do Norte, é para mim um dos melhores poetas contemporâneos. Ele publicou "Depois da capela tem um abismo", livro impressionante. Anchieta Mendes, com o romance "Círculo de giz", Lupeu Lacerda, com "Entre o alho e o sal"... Isto só pra ficar nos mais de perto. Tem o Pedro Salgueiro, que li primeiro noutra antologia, acho que na do Rinaldo de Fernandes, ele tem um livro chamado "Dos valores do Inimigos". Agora, eles são "novos´ escritores"? São geração zero-zero, zero-um, zero-mil? São escritores. Ponto. É só perguntar a um leitor maduro que ele dirá.

SIDNEY ROCHA, Escritor 

Literatura-Zeros à direita

Escritores de um novo tempo, os autores que despontaram na confusa primeira década do século XXI se veem confrontados por uma série de desafios. Ora é o papel que vacila, ameaçando sair de cena para dar espaço a novos suportes de leitura, ora é a verborrágica internet, incubadora de novos literatos, que exige a reinvenção diária e, por que não dizer, a maledicência de antecessores. Tema de uma polêmica antologia, organizada por Nelson de Oliveira, os escritores da geração 00 são tema da edição de hoje do Caderno 3, que navega por uma escrita em busca de identidade e disposta a levar a literatura por mares nunca dantes explorados

Inspirado pela coletânea "Geração Zero Zero", organizada por Nelson de Oliveira, com contos de autores brasileiros que ingressaram na literatura a partir do ano 2000, o Caderno 3 lançou-se ao desafio de responder a instigante questão: quem faz a nossa Geração 00?


Assumindo os riscos e as ciladas que assombraram Nelson de Oliveira - questionado sobre os nomes que ficaram de fora e acusado de falacioso e interessado em fazer "marketing literário" - e nos eximindo, de antemão, da intenção de chegar a uma lista definitiva da nova geração cearense, rastreamos algumas dessas mentes literárias que se destacam e começaram a publicar seus textos com o ingresso do novo milênio.

Seguindo a cartilha do bom jornalismo, procuramos alguns escritores cearenses já consagrados, que acompanham a produção literária do Estado para nos ajudar a desvelar essa geração. A primeira conversa é com Pedro Salgueiro, escritor iniciado na década de 1990, autor de livros como "O Peso Morto" (1995) e "Inimigo" (2007), e editor das revistas literárias Caos Portátil (um conhecido celeiro de novos talentos das letras cearenses) e, mais recentemente, Para Mamíferos.

Urik Paiva, apontado pelo escritor e antologista Pedro Salgueiro, como um dos bons nomes da literatura surgida na primeira década deste século
FOTO: MARÍLIA CAMELO
Pego de surpresa e assustado com a dimensão e responsabilidade da tarefa, Pedro adverte que o início da década foi uma época de intensa produção literária no Estado, com muitos e bons autores. Como referência, ele utiliza os textos publicados nas duas revistas que edita. "Nessas revistas têm surgido muitos autores bons. Tem muito mais gente boa escrevendo por aí, mas você acaba esquecendo", diz.

Entre os novos contistas, ele cita Carmélia Aragão, premiada pela Secretaria da Cultura do Estado, por seu livro "Vou esquecer você em Paris" (2007). "É uma boa contista, que começou publicando no Caos Portátil. Ganhou um prêmio e está escrevendo outro livro", revela.

Outro bom nome é o jornalista Alan Santiago, autor da coletânea de contos "A Lua de Ur Num Prato de Terra", vencedor do edital da Secult, em 2009, editado pela coleção Rocinante, da conceituada 7 Letras. "Agora, o Alan ganhou uma bolsa da Funarte para escrever um romance", adianta Pedro Salgueiro, que acompanha os passos desta promessas literárias. Ele destaca a inventividade e a pesquisa como traços importantes na obra destes dois jovens autores. "Eles conseguem fugir do somente contar história, têm um estilo bem arrojado", afirma.

Pedro cita ainda Renato Barros de Castro, que também se sai bem escrevendo contos e publicou biografia do jornalista Lustosa da Costa e, recentemente, um livro de crônicas. Outro destaque é Raymundo Netto, que apesar de ter nascido em 1967, bem antes da maioria dos escritores citados como sendo da geração 00, teve seu primeiro livro, o romance "Um Conto no Passado: cadeiras na calçada", outro vencedor de edital estadual, em 2004. "Como a geração é baseada em quando começou a publicar (ele se encaixa)", justifica. O trabalho de Raymundo Netto se destaca pelas referências históricas que utiliza em suas ficções. "É uma novidade em termos de ficção", declara.

Bastante aclamado por Pedro, Dércio Braúna entra na lista dos poetas, destacando-se também por trabalhos acadêmicos sobre literatura. "Ele publicou um livro sobre Mia Couto e a cultura moçambicana. É um estudioso sobre cultura africana em língua portuguesa", descreve. E, ainda entre os poetas, ele cita diversos, como Webson Moura, Ayla Andrade, Mardônio França, proprietário da revista virtual e selo editorial Corsário. Também entre os poetas, Ylo Barroso, Manuel da Fonseca, editor da revista Pindaíba, e o Poeta de Meia Tigela. Este último, destacado por Salgueiro como, indubitavelmente, "um dos melhores dessa geração".

Por fim, ele cita Urik Paiva, "que não tem livros publicados, mas é um bom escritor, muito jovem", e Carlos Roberto Vazconcelos, que escreveu o livro de contos "Mundo dos Vivos".

Mariana Marques: autora do elogiado "Transatlântico" e conhecida por sua atuação na internet
FOTO: RODRIGO CARVALHO
Geração virtual
Professora do Departamento de Letras Vernáculas da Universidade Federal do Ceará, Tércia Montenegro bateu na trave da Geração 00. Ela publicou o seu primeiro livro de contos "O Vendedor de Judas", em 1998. Tércia não arrisca muitos palpites, certa de que Pedro Salgueiro já teria citado quem também considera importante. Ela complementa, no entanto, a lista com os nomes de Tárcio Pinheiro, autor de "Janela Para o Caos", e Kelson Oliveira.

Tércia reforça a importância da popularização da internet como marco diferencial dessa geração. "Eles têm essa facilidade do suporte da internet, dos blogs, das redes sociais, a descoberta do nanoconto, através do Twitter", aponta. Para ela, apesar de ser utilizada por escritores de todas as gerações, a internet é assimilada com mais naturalidade pelos mais jovens. "Esses autores já nasceram com essa convivência. Coisa que, para nós, requer adaptação, conhecimento", avalia.

Ela destaca ainda que essa relação intima com a internet interfere na própria linguagem do grupo, tornando-a mais sincrética com as características da web. "A maioria já nasce impregnada disso. Mesmo que muitos não usem com frequência (a internet), mas são afetadas pela atmosfera da época", avalia. Tércia adverte, entretanto, que uma conclusão mais contundente sobre o assunto só poderia ser tomada com um estudo acadêmico. Esta é a constatação em primeira impressão.

O terceiro a nos guiar pelas letras do início do século é o escritor Jorge Pieiro. Ele participou das duas coletâneas Geração 90, de Nelson de Oliveira, e também coedita as revistas Caos Portátil. Apesar de considerar forçado o recorte proposto por Nelson, Pieiro dá dicas.

Anna K., Joyce Nunes, Mariana Marques e Natércia Pontes são os nomes que primeiro lhe vêm a mente, como destaques no conto. As quatro lançam em breve um livro coletivo com outros autores, entre os quais, o próprio Jorge, com narrativas sobre Fortaleza.

Ainda que compartilhe com Tércia a opinião de que esses novos escritores são marcados pela internet, Jorge alerta que isso não dá propriamente uma unidade, não cria um movimento para essa geração. "É apenas um condicionamento", ressalta. E como exemplo, ele cita ainda Airton Uchoa. "Estou lendo um romance que ele vai lançar, que é completamente diferente (do que é condicionado pela internet). Ele é verborrágico diante de uma situação que é concisa", revela.

A relação de novos talentos é extensa e este espaço curto. Como não poderia ficar de fora, completando nossa relação de 21 autores (à exemplo do livro de Nelson de Oliveira), citamos Sidney Rocha. Natural de Juazeiro do Norte e residente no Recife, Sidney é o único autor cearense que participa da coletânea dos Zero Zero. Ele publicou, em 2009, o livro de contos "Matriuska", pela editora Iluminuras. E que mais autores, outros bons escritores dessa geração, venham a nos contestar e ampliar este quadro.


A geração que faz o caminho inverso
Porta de entrada de dez entre dez novos escritores, a internet não tem quebrado o encanto das novas gerações como os velhos formatos do livro e das revistas
Se já da geração de 1990, Nelson de Oliveira compilou o livro "Geração 90: Manuscritos de Computador", na década seguinte, dos 00, à depender da tecnologia, os manuscritos estariam definitivamente digitalizados e o papel seria um mero capricho. O surgimento de inúmeros espaços virtuais para a literatura (que segue se multiplicando em sites, redes sociais, blogs, microblogs) facilitou a propagação de textos literários e o surgimento de inúmeros autores, dispersos em um amálgama confuso e volátil, onde muitas vezes não se sabe quem é o que, nem o que é de quem.

Diante desse caldo ciberespacial, percorrendo caminho inverso aos de 1990 (que migraram do impresso para a internet) os jovens escritores recorrem às mídias mais tradicionais em papel como jornais e revistas literárias, além do livro, como forma de se destacar e fixar seus nomes enquanto autores. Para Jorge Pieiro, que edita a revista Caos Portátil ao lado de Pedro Salgueiro, a tendência é que esses veículos ganhem novamente força após a euforia inicial da internet. "Estamos em uma fase de transição. Todos vão pensar ´esquece o livro, é tudo virtual´, mas acho que lá na frente volta. É o eterno retorno", defende.

Pedro Salgueiro calcula que entre 60% e 70% dos textos publicados na revista são de autoria de escritores que surgiram a partir do ano 2000. Apesar dos sites estarem em alta, os periódicos ainda mantêm sua função histórica de agrupar gerações escritores, a exemplo do jornal O Pão, jornal do grupo Padaria Espiritual, que marcou a virada do século XIX para o XX, a Revista Clã, editada nos anos 40 pelo grupo Clã, O saco, nos anos 70 e, à partir de 2005, a Caos Portátil. Pedro edita ainda a revista Para Mamíferos, ao lado de Glauco Sobreira, Nerilson Moreira, Tércia Montenegro e Jesus Iracy. Muitos jovens autores cearenses também recorrem ainda a publicações em veículos não especializados, no exemplo recente da extinta Revista Aldeota, de cunho jornalístico, além de editoras locais, no caso dos livros, como a La Barca e a recém criada Dedo de Moça.

Para Jorge, os textos publicados em revistas eletrônicas não suprem o desejo dos autores de ter seu texto impresso. A revista é, nesse sentido, uma maneira de amplificar o que antes era personalista, publicado em um blog ou site pessoal. A revista serviria como forma de reconhecimento junto ao meio literário. "Se fulano escreve na revista A, B ou C, então ele já tem um grau de importância. No livro ele diz ´Ah, agora estou imortalizado´", brinca, justificando que o mesmo sentimento não acontece com a publicação na web.

Outro ponto que ajuda a justificar o número crescente de publicações em papel é o barateamento do processo, fruto também do avanço tecnológico, e iniciativas públicas e privadas de custeio das publicações. "Os editais propiciam que todo mundo publique. Coisa que, nos anos 90, nós não tínhamos".

FÁBIO MARQUES
ESPECIAL PARA O CADERNO 3

segunda-feira, 25 de julho de 2011

O sertão se faz em versos

Dideus Sales: poeta ligado à tradição popular lança novo livro, no qual transforma em versos o cotidiano
FOTO: CID BARBOSA
Pequenas flores que se abrem em sorrisos azuis-arroxeados, muitas vezes, em tons violetas, esverdeados ou vermelhos-púrpuras, conforme os ângulos de incidência de luz, as Jitiranas são plantas que afloram sob as primeiras carícias das chuvas no sertão. A simplicidade e a beleza delicada desta planta viram metáfora para o poeta Dideus Sales expressar, ao longo de 27 poemas sua admiração pelo interior cearense.

Com o curioso nome de "Jitiranas de Luz", Sales batiza seu 12º livro. A nova coleção de poemas será lançada amanhã, às 19h30, no Centro Cultural Oboé. A obra, cujos poemas haviam sidos publicados primeiramente na revista "Gente de Ação", editada por ele mesmo, fala de gestos, situações, sentimentos, prazeres e dissabores do cotidiano.

Cada poema, é acompanhado por uma ilustração produzidas pelo artista plástico cearense Audifax Rios. Ele e o poeta são amigos há mais de 20 anos e a parceria já rendeu aos dois diversos projetos.

Poesia
Dideus Sales começou cedo à carreira no mundo da métrica, ainda, na rádio Educadora de Crateús, sua cidade natal. O poeta apresentava um programa de fim de tarde, no qual recitava poemas, apresentava cantorias e realizava contação de causos. Ali permaneceu por dez anos, partindo em seguida para as rádios Príncipe Imperial, de Crateús; Difusora dos Inhamuns; em Tauá, Itataia; em Santa Quitéria e Canoa FM, em Aracati. Nesta cidade, ele vive há 15 anos, ao lado da esposa, Bel, e dos filhos, Matheus e Vitória.

Além do trabalho como radialista, o despertar para a poesia veio da convivência com importantes nomes da cultura nordestina, como o repentista Geraldo Amâncio e o poeta Patativa do Assaré. Sales revela que a amizade com Patativa foi fundamental para o amadurecimento poético e o gosto pelo gênero popular. "Em 1980, fui á casa de Patativa, mostrei meus versos e ele gostou. Ficamos amigos. Lembro que o acompanhei em algumas viagens por cidades do interior do Ceará. Patativa era uma pessoa muito generosa e simples", diz.

"Jitiranas de Luz" dá sequência ao trabalho realizado por Dideus Sales, a partir de versos laborados por alguém que guarda dentro de si o lirismo e a sabedoria do povo sertanejo. O poeta discursa a própria vida, despontando-se como o intérprete das muitas linguagens e facetas que assomam o sertão, onde personagens saltam em meio aos seus sonhares, anseios e esperanças. O livro apresenta ao leitor poemas de caráter social a exemplo de "O mugido do boi", sobre o sofrimento do sertanejo diante dos rigores da estiagem; e o introspectivo "Cada minuto que morre". Nas palavras do pesquisador Gilmar de Carvalho: "Dideus continua a cantar seu canto, a encantar seus leitores com suas rimas, com sua viola imaginária, cruzando o arco da rabeca, falando dos temas eternos, como o amor, a morte e a terra castigada pelo sol".

O poeta cearense Dideus Sales lança na terça-feira, no Centro Cultural Oboé, seu 12º livro. "Jitiranas de Luz" reúne uma série de poemas inspirados nas belezas e encantos do sertão nordestino

Poema  
Jitiranas de Luz  
Dideus Sales

EXPRESSÃO GRÁFICA
2011
128 PÁGINAS
R$ 20

Lançamento amanhã, às 19h30, no Centro Cultural Oboé (Rua Maria Tomásia, 531 - Aldeota). Contatos: (85) 3264.7038

ANA CECÍLIA SOARES
REPÓRTER

Barra do Ceará faz 407 anos

O primeiro bairro de Fortaleza conserva uma beleza única e também muita história, embora nem tudo seja perfeito

Na Praça de Santiago da Barra do Ceará, a programação comemorativa será iniciada às 6 horas de hoje
FOTO: MIGUEL PORTELA

Barra do Ceará. Mais do que um bairro, o lugar é berço histórico, não só de Fortaleza, mas também do Ceará. Hoje a Barra do Ceará, primeiro bairro de Fortaleza completa 407 anos, e, apesar dos anos, conserva belezas naturais que atraem não só os fortalezenses, mas turistas. A história conta que no ano de 1606, o capitão-mor português Pero Coelho de Souza e sua expedição fundaram a Povoação de Nova Lisboa. Para defendê-la dos invasores holandeses e espanhóis, construiu o Fortim São Tiago. Passados 407 anos, no local onde foi erguido o forte, existe hoje o Polo de Lazer da Barra do Ceará e uma praça que herdou, inclusive, o mesmo nome do forte. Ali durante todo o dia, crianças aproveitam para soltar pipa, andar de bicicleta e os mais adultos aproveitam para fazer caminhada.

O morador e autônomo Rogério Gomes de Rocha, 42 anos, conta que, com a construção do calçadão, viabilizado pelo Projeto Vila do Mar, as opções de lazer cresceram consideravelmente. "O calçadão foi uma ideia louvável da atual gestão. Não podemos deixar de falar isso. Agora as pessoas têm um local para praticar esportes e passear com a família, situação que era impossível de acontecer uns anos atrás", lembra.

O Movimento Marco Zero de Fortaleza da Barra do Ceará, que resgata a memória histórica da Capital, realiza anualmente as comemorações da data, na Praça de Santiago da Barra do Ceará, a partir das 6 horas. Hoje, pela manhã, após alvorada de fogos, haverá uma recepção para os coopistas e aos visitantes em geral. Já no período da tarde, às 15h30min acontecerá um ato ecumênico, onde a imagem de São Santiago percorrerá as principais ruas da Barra do Ceará. Às 16horas ocorrerá a Caminhada Marco Zero 2011 pela Avenida Radialista Lima Verde. Também haverá a procissão Marítima Duc in Altum, passagem das aeronaves do 1º do 5º Esquadrão Rumba da Base Aérea de Fortaleza e passeios ecológicos de barcos.

domingo, 24 de julho de 2011

Aposentado incentiva o hábito da leitura

Há cinco anos, Eliomar Alves transformou uma sala de casa em uma espécie de sebo ou livraria informal

Além de livros de literatura e didáticos, na casa de Eliomar Alves, existem algumas peças de artesanato e diversos quebra-cabeças à venda. Vem atraindo leitores cada vez mais
FOTO: HONÓRIO BARBOSA

Iguatu. Uma iniciativa inédita procura contribuir para a divulgação da leitura de obras novas e usadas entre os moradores desta cidade, localizada na região Centro-Sul. Há cinco anos, o aposentado do serviço público estadual, Eliomar Alves, transformou uma sala da casa dele, que dá acesso direto à Rua 15 de Novembro, no Centro, em uma espécie de sebo ou livraria informal. A novidade é o aluguel das obras literárias. Essa modalidade tem despertado e atraído a atenção dos leitores.

O gosto pela leitura de obras clássicas da literatura nacional e estrangeira, em particular por biografias, cultivado ao longo da vida, contribuiu para que na terceira idade, Eliomar Alves, encontrasse uma forma de ocupar o tempo, com atividade laboral e de lazer.

O projeto começou pequeno com reduzido número de volumes, mas hoje se expandiu e já ocupa meia dúzia de prateleiras, na sala que lembra mais um corredor comprido.

Volumes

Não há uma organização com critério bibliotecário, mas o aposentado sabe onde encontrar cada volume, dispostos nas prateleiras, e guardados em sacos plásticos para evitar a poeira. O preço do aluguel de qualquer obra é de R$ 0,20 por dia. Esse mesmo valor é mantido desde o início do projeto. "Não é um empreendimento para dar lucro, mas uma forma de lazer ocupacional e cultural", explica Eliomar Alves. "O meu objetivo é contribuir com a leitura e a minha preocupação é que os jovens deveriam ler mais".

Gosto pela leitura

Na estatística particular do livreiro, os que mais compram e alugam livros são pessoas acima de 40 anos. "Parece que os jovens não gostam mais de ler livros", observa. "Existem muitos poemas bons, histórias interessantes que são desconhecidas pela juventude". Em poucos minutos de conversa, o idealizador do projeto relaciona vários autores e livros que aponta como fundamentais para a formação do conhecimento cultural.

O preço de venda dos livros é variável e o livreiro não se limita a ficar sentado, esperando a visita de um possível comprador. Diariamente, coloca algumas publicações em uma sacola e percorre ruas do Centro da cidade, oferecendo as obras para compra ou aluguel. "Ainda hoje existem aqueles que se surpreendem quando falo em alugar livro, pagando um valor diário", comenta ele. "A maioria prefere comprar".

Satisfação

Apesar das dificuldades e do limitado número de leitores, Eliomar Alves disse estar satisfeito com o trabalho que faz e quer se manter na atividade por mais tempo. Não pensa em parar e sempre está adquirindo publicações novas ou usadas. O sebo é o primeiro da região e surge numa época em que as livrarias não resistiram nas pequenas cidades e o acesso ao computador e à Internet avança a cada mês.

Fazer pesquisas, consultar biografias e estudar disciplinas escolares está mais fácil e rápido, a um simples clique na página para que milhares de opções surjam na tela do computador e um mundo diversificado de informações chegue ao pesquisador, mesmo que os estudantes não leiam e se limitem a copiar, colar e imprimir o trabalho.

"Ler bons livros é um hábito que deve ser cultivado e multiplicado", frisa o livreiro, que quer manter a tradição. "A leitura nos faz viajar por sonhos, situações e lugares diversos e distantes". Além de livros de literatura e didáticos, há algumas peças de artesanato e diversos quebra-cabeças à venda, com desafio. Quem conseguir montar em cinco minutos ganha o objeto.

MAIS INFORMAÇÕES

Sebo de Eliomar Alves
Rua 15 de Novembro, 173
Centro da cidade de Iguatu
Região do Centro-Sul

HONÓRIO BARBOSA
REPÓRTER