segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Padaria Espiritual: A Arte que Alimentou o povo cearense

A Literatura Cearense teve inicio com os “Oiteiros” que reuniam-se em torno do governador Manuel Inácio Sampaio, que era um apreciador das artes. Sendo o povo cearense extremamente criativo, nas artes, no artesanato, nas cantigas, nos folguedos,  festas e literatura de cordel despertou, no governo a pretensão  de  formar uma agremiação literária no Ceará, no entanto, não conseguiu realizar seu desejo.

Anos depois, em 30 de Março de 1892 foi fundado por Antônio Sales, um jovem nascido em Parazinho, município de Paracuru, Ceará, a Padaria Espiritual, que foi a associação literária mais importante desse estado. Tinha como fim fornecer pão de espírito aos sócios em particular e ao povo em geral. A Padaria surgiu na Praça do Ferreira, nas mesas do café Java onde os “padeiros” como assim eram chamados, encontravam-se nas “fornadas” como eram denominadas as reuniões do grupo para leitura de trabalhos inéditos de autores da literatura brasileira e universal, tendo como objetivo promover a leitura e a escrita de  maneira simples e prazerosa, diferente das outras agremiações existentes.

Os “padeiros” eram um grupo de intelectuais, formado por escritores, pintores, desenhistas e músicos que externavam através da arte suas ideias levando informação de forma criativa e descontraída ao povo cearense. Seus artigos expressavam seus pensamentos e objetivos. Toda sua produção era publicada no jornal “O PAO” que era impresso, ou melhor, “amassado” quinzenalmente com as produções dos “padeiros” com o propósito de produzir alimento para a alma, ou seja, o conhecimento literário.

Na mesma época que surgiu a Padaria Espiritual ainda duas outras importantes agremiações literárias iriam surgir, o Centro de Literatura e a Academia Cearense de Letras ambas no ano de 1894. A Academia Cearense de Letras é a mais antiga das Academias de Letras existentes no Brasil, fundada três anos antes da Academia Brasileira de Letras no Rio de janeiro

Irreverentes, irônicos e debochados os jovens, principalmente na primeira fase, composta por 20 sócios apreciavam festas e comemorações, mesmo assim, não desrespeitavam o estatuto da agremiação criado pelos membros. A primeira fase foi marcada por criticas e protestos, eles contestavam a indiferença na nossa literatura e os estrangeiros. O legado da primeira fase esta no humor crítico, como percebe-se no acontecimento relembrado  por Antônio Sales, fundador do movimento: “certa vez, Lopes convidara os colegas para uma feijoada Mondubim. Os padeiros chegaram à estação de ferro de Fortaleza empunhando um gigantesco pão de três metros de comprimento, todos vestidos com ternos de  flanela riscada, usando cartola e monóculo, ao som do violino de Carlos Vitor. Imagine-se o escândalo que causou na estação esse corteja, onde toda população veio para a rua ver-nos passar.

A segunda fase, composta apenas por 14 membros apresentava um caráter mais sério da agremiação, nesse período eles liam e publicavam suas próprias criações, como por exemplo, Oliveira Paiva iniciou a publicação de seu romance D. Guidinha do Poço nas páginas do jornal O Pão. No entanto, nem mesmo nesse período mais sério o humor não foi deixado de lado, embora com menor intensidade do que na primeira fase, mas eles mantiveram seu espírito irreverente exercendo assim, umas das funções do movimento que era provocar a sociedade burguesa da época com sua arte.

Todos os padeiros tinham um nome de guerra, pelo qual eram chamados no exercício de suas funções durante as “fornadas”, que eram reuniões divertidas, mas nem por isso deixavam de lado as coisas sérias, traçavam suas metas, como por exemplo, a criação de um Cancioneiro Cearense, tirado de nossa cultura popular. Infelizmente por problemas financeiros e dispersão dos seus fundadores, a Padaria durou apenas seis anos e meio. A última fornada aconteceu na casa de Rodolfo Teófilo, líder da segunda fase.

Vale ressaltar, que as atitudes irônicas, e irreverentes dos integrantes da Padaria justificava-se por seu objetivo que era criticar a sociedade cearense e sua forma de pensar e agir na  época, valorizando a cultura européia, então através de sua arte eles manifestaram seu descontentamento   e concomitantemente  difundiram a  produção cultural nacional como forma de valorizar o que é nosso. Assim sendo, percebe-se a importância do movimento para o desenvolvimento da cultura cearense, promovendo o gosto artístico e literário na sociedade. A Padaria Espiritual, também deve grande relevância na consolidação do Realismo no Ceará, foi também nesse período que desenvolveu-se o Simbolismo cearense.

Indubitavelmente, a “Padaria Espiritual” teve um significado extraordinário para a cultura cearense, conseguiu deixar suas marcas ao longo do tempo através de suas obras. Infelizmente, a geração mais jovem do nosso estado pouco conhece a história desse movimento tão significativo na valorização da arte no estado. Atualmente alguns membros são lembrados em nomes de ruas em Fortaleza, no entanto, muitos desconhecem o real motivo delas receberem esses nomes.

O estado precisa de novos movimentos que despertem o interesse do povo para o mundo da leitura e escrita, alimentando  a alma de sua gente com informações como fez a “Padaria Espiritual”, porque um povo com conhecimento muda seu destino e constrói sua história, exercendo com mais dignidade sua cidadania.

Ivaneide Irineu dos Santos, de Itapipoca, Licenciatura Plena em Pedagogia, Licenciatura Específica em Português, Especialização em Metodologia do Ensino Fundamental e Médio.

Fonte: Jornal Correio da Semana

Natureza de pesquisador

André Frota de Oliveira lê os códices em sua mesa no Arquivo Público.
FOTOS: ALANA ANDRADE



Há mais de 30 anos, um homem assina diariamente a ata de presença da sala de pesquisa do Arquivo Público do Estado do Ceará, no Centro da cidade. André Frota de Oliveira, 59 anos, é um dos jovens senhores que curiosamente visitam todos os dias os equipamentos de pesquisa de Fortaleza
O prédio é mais uma das construções históricas de Fortaleza ofuscadas pela correria do Centro da cidade. Diante dele, joalherias antigas vendem folheados em ouro.

Mais a frente, estão as lojas dos que têm criatividade para criar peças tão bonitas quanto as das joalherias ou mesmo dos que não possuem dinheiro suficiente para possuir as tais peças delicadas de ouro branco: são as lojas de "bijoux".

Em uma esquina da Senador Alencar reside, pois, reservado e discreto, o Arquivo Público do Estado do Ceará, destinado a guardar documentos públicos e particulares com idades de até 300 anos.

Conservados, tímidos e dotados de um certo mistério tal qual o prédio são alguns dos que, ao longo da história, o frequentaram. Um deles: André Frota de Oliveira, ou como lhe conhecem, professor André. O jovem senhor de 59 anos é um assíduo frequentador do Arquivo Público.

Britanicamente, ele chega ao local às 9h e o deixa às 16h50. Quantas vezes por semana? Todos os dias. O que faz? Pesquisa. Porque? Por que é da sua "natureza", assim fez questão de ressaltar.

Visitantes que pesquisam no acervo, reconhecem sua silhueta alva e esbelta ali no canto da sala. O convívio e a assiduidade concederam-lhe o privilégio de um birô só seu, espaço onde dispõe livros, canetas, anotações em rascunhos amarelados, além de copos dos poucos cafezinhos que sorve ao longo do dia.

Livros publicados por André Frota
Na leitura dos códices, nome dado aos grandes livros antigos e manuscritos, André demonstra habilidade e rapidez impressionantes. Quem repara os escritos lidos por ele pode jurar que não são palavras o que ali se encontra.

Educado, tranquilo e falante, assim é o tal pesquisador que decifra códigos ininteligíveis, mas que, aparentemente não fora, ele mesmo, decifrado. O que pesquisa, onde mora, de que se sustenta, com quem vive? Fomos saber.

Origens

André Frota nasceu em uma família já antiga, descendente de uma prole idem, que deu origem a uma criança ibidem. O pai era muito culto, de modo que o menino André foi criado entre as prateleiras da biblioteca paterna e ao som de música clássica. Segundo ele, sua família sempre possuiu forte tradição cultural, o maior exemplo é o irmão de sua bisavó: o escritor Lívio Barreto, membro da Padaria Espiritual.

Quando jovem, tomou aulas de alemão com o professor Wolfgang Brandenburg, natural de Berlim. Com as lições, tornou-se professor do idioma e tradutor. Seu hábito de pesquisa foi propriamente desenvolvido na década de 70. Nessa época, trabalhava numa companhia de correios e telégrafos. André lembra bem o dia em que chegou ao Instituto do Ceará (Histórico, Geográfico e Antropológico), primeiro acervo que pesquisou.

"Foi no ano de 1974. Se você olhar os livros de presença daquela época, é capaz de minha assinatura ainda estar lá", relembra. Procurava nos documentos vestígios da história do município de Granja, de onde descende sua família.

A pesquisa era ainda desenvolvida apenas nos tempos livres, depois do trabalho. Nesta empreitada, visitou o Instituto do Ceará, a Curia Arquidiocesana, a Biblioteca Pública Menezes Pimentel (sobretudo, o setor de obras raras), mas dedicou-se principalmente ao Arquivo Público.

Pesquisas

Não demorou para que expandisse suas pesquisas para além das fronteiras de Granja. Ao longo dos mais de 30 anos, publicou três trabalhos: "A estrada de ferro de Sobral", "A fortificação holandesa no Camocim" e "Quadros da história de Granja no século XIX". Além desses, a Secretaria de Cultura do Estado publicou ainda uma coleção de três livros, resultado de um longo trabalho de transcrição empreendido pelo pesquisador.

"Os códices estavam em péssimo estado, precisava transcrevê-los para que não se perdessem. Então o secretário da época soube e resolveu publicá-los". A coleção intitulada "A Confederação do Equador" está esgotada e André aproveita a ocasião para um pedido: "A Secretaria precisa publicar uma nova edição porque ela está esgotada e é muito procurada aqui".

Escolhas

Há cerca de 12 anos suas pesquisas se tornaram ininterruptas, resultando nas idas diárias ao Arquivo. O antigo professor de alemão e ex-funcionário da Embratel não se aposentou, tendo simplesmente abandonado suas funções. Tão logo nos disse isso, uma curiosidade sobreveio: se não se aposentou, nem tem emprego, como se sustenta e a sua família?

Aí é que está: André não tem esposa nem filhos. Vive com a mãe e as irmãs. A grande família conservadora acostumou-se a viver unida, de modo que o pesquisador sentiu-se livre o suficiente para dedicar sua vida ao que mais lhe satisfazia. Casou-se com a pesquisa.

O dinheirinho extra que ganha provem da venda de alguns livros, providenciada por um colega dono de um sebo. "Não preciso de muito, não sou uma pessoa que quer muitas coisas. Dediquei minha vida à pesquisa e posso dizer que sou feliz assim. De nada adianta ter muito dinheiro e não fazer o que se gosta", responde com sabedoria.

O autodidata chegou inclusive a cursar duas faculdades, Direito e Filosofia, mas as abandonou. Queria ser livre para pesquisar o que quisesse. Para ele, sua vida de pesquisador não se acomodou ao universo acadêmico e também não teria sido possível se tivesse casado. "Ter esposa e filhos exige dedicação. Penso que não conseguiria fazer as duas coisas", afirma. É feliz, contudo. Algo, no mínimo, admirável em tempos de pessoas tão pouco satisfeitas.

Auxílio

Engana-se, no entanto, quem pensa que o autodidata permanece imerso em suas próprias leituras. Segundo os funcionários do Arquivo, eles mesmos não sabem o que seria dos visitantes não fosse o pesquisador. Dona Lireda Batista, responsável pela sala de pesquisa, sintetiza bem a atuação de André: "É mais fácil um funcionário faltar do que ele. Ave Maria, se não fosse ele aqui pra ajudar esses meninos que, às vezes, vem fazer uma pesquisa. Ele lê esses livros pra eles, quando não entendem as letras antigas. Ele deixa as coisas dele e vai lá ler pros meninos. Eu nunca vi uma pessoa assim", afirma a funcionária, envergonhando André, que escutava no canto da sala.

Assim como auxilia os estudantes, foi também, quando jovem, ajudado. Em meio aos papeis do birô particular, André conserva em um porta retratos o decalque do mestre: Geraldo Nobre, ex-diretor do Arquivo. Geraldo era, tal qual André, um solteirão tímido, reservado e integralmente dedicado à pesquisa.

Foi ele quem o ensinou a manusear os livros, decifrar os manuscritos e compreender o valor da pesquisa. Para André, os pesquisadores de hoje não tem paciência e dedicação suficiente para desenvolver bons estudos. "São poucos os estudantes que vêm aqui. Para fazer pesquisa é preciso muita leitura, isso é um processo demorado, não se faz com uma ou duas visitas", alerta.

Atualmente, André se dedica à tradução de um livro alemão para o português. A obra se chama "Meine Reise in den Brasilianischen Tropen", de autoria da Princesa Therese da Baviera, e relata uma viagem feita por ela aos trópicos em 1889. Tomou conhecimento do livro pelo bibliófilo cearense Jorge Brito, hoje residente em Brasília, e achou que seria importante traduzi-lo.

A princesa, uma naturalista, faz observações acerca da fauna e da flora brasileira, inclusive com termos específicos, que ultimamente perturbam a tradução de André. "Sou um homem das Ciências Humanas, já a autora é naturalista. Então, quando ela fala de um gafanhoto, já fala do nome específico do inseto, quando fala de uma formiga, são milhares de tipos de formiga, o que tem dificultado o meu trabalho", argumenta. Cauteloso, resguarda tais termos técnicos em um maço de folhas unidas com um clipe. Por certo, há de caçar a tradução de cada uma delas.

Faltando dez minutos para as cinco da tarde, o senhor de cabelos brancos encerra mais um expediente. Deixa o prédio e segue a pé para casa, localizada a pouco mais de três quilômetros dali. Não tem medo do caminho. Gosta das longas caminhadas, da música clássica, do silêncio tímido, da liberdade de viver ao seu método e, principalmente, da pesquisa. São, de certo modo, sua religião, sua natureza. Leia mais na página 4

Fique por dentro
Solar dos Fernandes

A construção que abriga o Arquivo Público do Estado do Ceará é um legado da família Fernandes Vieira. O prédio foi construído em 1880 e destinado ao Arquivo em 1916. O acervo do equipamento é composto de correspondências, processos, relatórios, certidões, inventários e mapas, provenientes dos Três Poderes e também de particulares, desde o século XVII

MAYARA DE ARAÚJO
REPÓRTER

Fonte: Diário do Nordeste 

O livro digital e o demónio da analogia

As promessas contidas no livro digital exercem um grande fascínio, mas maior é a resistência do livro impresso e não se vislumbra a sua morte. 

Mudrats Alexnadra/CORBIS
Há quase meio século, escutou-se pela primeira vez a profecia da morte do livro impresso. Foi em 1962, e o profeta tinha nome que haveria de soar a visionário: Marshall McLuhan.

Reiterada de tempos a tempos, reativada como um programa inevitável a partir do momento em que a Internet e os motores de busca passaram a fazer parte do quotidiano, em meados dos anos 90, a profecia não se cumpriu: a "galáxia de Gutenberg" não passou a ser uma coisa do passado, e a espécie do Homo typographicus continuou a crescer e a multiplicar-se, ainda que a sua condição seja agora híbrida, já que passou também a responder - e todos nós sabemos com que solicitude e velocidade - às solicitações da era digital.

Certo é que o caudal dos livros que se folheiam com os dedos, os livros impressos, não parou de aumentar. Robert Darnton (ver bibliografia no final do artigo), um dos mais importantes historiadores do livro e diretor da Biblioteca Universitária de Harvard, fornece os números desta marcha progressiva, num tempo que se esperava ser de abrandamento: em 1998 foram publicados em todo o mundo 700.000 novos títulos, em 2003 foram 859.000 e em 2007 foram 976.000.

Em suma, o mais velho instrumento de leitura - o códex - não apenas não foi expulso (de acordo com a velha teoria de que um novo meio de comunicação nunca exclui completamente o anterior) como manteve a sua posição de domínio absoluto.
A descoberta tecnológica mais importante

Recordemos então, brevemente, uma história de muitos séculos e escassos - mas importantes - acontecimentos. O homem inventou a escrita por volta de 4000 antes da nossa era (um especialista como Jack Goody designou-a como a descoberta tecnológica mais importante da história da Humanidade).

Os hieróglifos egípcios têm apenas menos 800 anos, e a escrita alfabética surgiu por volta do ano 1000. No século II d.C. dá-se um acontecimento importante na história do livro: o códex, isto é, o livro composto por páginas que se viram, substituiu o rolo.

A invenção da tipografia, em 1450, veio, por sua vez, modificar o códex de uma maneira que o tornou naquilo que ainda hoje perdura.

O livro é, assim, uma das mais persistentes e duradouras tecnologias.

As razões da perenidade deste aparelho extraordinário encontram-se nestas características: armazena muita informação em pouco espaço, arruma-se e transporta-se facilmente, tem um formato que o torna bastante manuseável, e a matéria de que é feito - o papel - não encontrou rival na capacidade de preservação (um dos receios mais justificados que os suportes digitais suscitam é o de estarem longe de garantir uma tal longevidade).
A metáfora absoluta

Tão poderoso é o livro que se tornou uma "metáfora absoluta" (um conceito do filósofo alemão Hans Blumenberg) - a metáfora da imagem do mundo.

O "livro do mundo" começou por ser um motivo da especulação místico-filosófico da Idade Média, mas acabou por perder o seu originário carácter teológico e ganhar um sentido profano.

De tal modo que, no Renascimento, o codex vivus da natureza desaloja do lugar central o codex scriptus da Bíblia, dando lugar ao paradigma metaforológico do "livro da natureza".

E esta metáfora do livro do mundo ou da natureza, que marca os alvores da época moderna, enraíza-se nas representações do livro tal como o conhecemos.
Outro tipo de representações

Quando se passa para o livro eletrónico, passamos para outro tipo de representações, já muito distantes das representações mentais e das operações intelectuais ligadas às formas que o livro tem no Ocidente desde há 18 séculos.

E dá-se, ao mesmo tempo, uma revolução da leitura, pois ler num ecrã não é o mesmo que ler num códex. A representação eletrónica dos textos modifica-os totalmente: a materialidade do livro dá lugar à imaterialidade do texto sem lugar próprio; e as relações de contiguidade impostas pela técnica de sucessão das páginas impressas (o que impõe uma leitura linear) opõe-se a uma livre composição fragmentária a que o digital convida.

Como observou Roger Chartier, estas mutações comandam inevitavelmente novas técnicas intelectuais.

Mas a razão pela qual os livros digitais não cumpriram exatamente o percurso triunfal que lhes tinha sido prometido no momento em que entraram em cena não tem a ver com resistências racionalmente elaboradas em função de danos e conveniências previsíveis, mas sim com hábitos, sensações e vícios incrustados no corpo e no cérebro do leitor pela civilização do livro impresso.
Disposição sensorial que o brilho do ecrã não satisfaz

Há uma erótica do livro que Proust imortalizou numa das páginas da "Recherche" (numa célebre descrição em que há uma mão que segura um livro, enquanto a outra acaricia o corpo de Albertine).

Mas há também uma disposição sensorial que o brilho do ecrã não satisfaz: aquela que retira prazer do cheiro e da textura do papel, das formas da encadernação.

De tal modo que um editor francês de livros eletrónicos (CaféScribe) tentou superar esta resistência fornecendo aos seus clientes um autocolante, para eles colocarem no computador, que emite um odor a papel.

Pode-se objetar que estes atavismos são próprios de quem se habituou à leitura nos livros impressos mas não contaminam quem se iniciou e cresceu com os computadores.

Mas, neste caso, há uma última e importante resistência que não foi ainda superada: o ecrã revela-se apto para uma leitura fragmentária e condensada, não para a leitura contínua e linear (os links da Internet levam esta aptidão ao paroxismo).

Causou algum frisson a seguinte afirmação de Bill Gates, o presidente da Microsoft: "A leitura no ecrã é ainda muito inferior à leitura no papel. Mesmo eu, que tenho ecrãs de alta qualidade e me vejo como pioneiro do modo de vida Internet, assim que um texto ultrapassa quatro ou cinco páginas, imprimo-o e gosto de o ter comigo e de o anotar. É uma verdadeira dificuldade para a tecnologia chegar a este grau de comodidade."
O apelo a um tempo próprio

Parece então - e este é um ponto importante - que o modelo de leitura a que o livro desde sempre fez apelo, e que implica, entre outras coisas, um tempo próprio, não é o mesmo modelo de leitura e de operações a que induz a rede e o ecrã.

É por isso que os leitores de ebooks têm evoluído à medida desta determinação paradoxal: os ebooks são tanto mais perfeitos e considerados eficazes quanto mais imitam os livros.

Assombradas por um demónio analógico, estas manifestações supremas do mundo digital aplicam-se a proporcionar ao leitor a sensação de que está perante um novo avatar do livro impresso, que pode folhear as páginas com as pontas dos dedos, escutar o ruído do atrito no papel, sublinhar e escrever nas margens...

Os livros digitais parecem ter como preocupação primeira adaptar-se aos leitores do livro impresso. Percebem-se assim as razões pelas quais se extinguiram as profecias da morte do livro e se multiplicaram as apologias, como aquelas que fazem Umberto Eco e Robert Darnton.

Este último reserva para o livro digital um futuro que passa por jornais e revistas, incluindo revistas científicas e monografias especializadas.

Numa altura em que as editoras universitárias foram obrigadas (mesmo nos Estados Unidos) a reduzir drasticamente o volume de publicações (e Darnton dá-nos um diagnóstico algo sombrio da situação), a edição on-line que pode ser descarregada revela-se o destino mais plausível.
Complementaridade e não exclusão

Mas, mais uma vez, é sobretudo aos mais dedicados leitores do livro impresso que se dirige o livro digital, numa situação de complementaridade e não de exclusão.

Darnton vai mais longe: mostra como as bibliotecas de investigação se tornaram ainda mais necessárias na época do "Google Book Search" e que, sem elas, a digitalização de milhões de livros que a Google já levou a cabo pode redundar no caos bibliográfico em que não é possível aferir a autoridade da cópia digitalizada.

Imaginemos, por exemplo, um livro que foi sendo alterado e acrescentado pelo autor em sucessivas edições.

A Google digitaliza-as todas? Digitaliza só a última, suprimindo as várias etapas que a ela conduzem?

A Google, sublinha Robert Darnton, tem ao seu serviço um exército de informáticos, mas não consta que nas suas fileiras haja um único bibliógrafo ou filólogo.
Campanha contra o projeto da Google

Esta e outras questões que põem em causa a possibilidade de uma biblioteca digitalizada servir para a investigação foi um dos motivos que levou o atual diretor da biblioteca de Harvard a fazer uma campanha no "New York Times" contra o projeto da Google, assinado em 2006 com cinco grandes bibliotecas, para digitalizar os seus livros: as bibliotecas de Nova Iorque, de Harvard, do Michigan, de Stanford e a Bodleian de Oxford.

Como é sabido, esse projeto acabou por encalhar em problemas de direitos de autor que ainda não foram totalmente resolvidos, mas teve um desenvolvimento importante em 2008, quando a Google assinou um acordo com um grupo de autores e de editores, embora deixando que se tornassem evidentes as suas intenções comerciais.

Perigosas - como se começou logo a ver, pelas armadilhas criadas às bibliotecas, na medida em que a Google detém o monopólio e não há qualquer possibilidade de vir a ter concorrência.

Mas regressemos ao ponto de partida. A atitude perante o livro digital já passou por três fases: uma fase inicial de entusiasmo utópico, à qual se seguiu um período de desilusão, superada a seguir por uma tendência para o pragmatismo. No entanto, nunca se quebrou totalmente um certo fascínio pelo livro digital, por mais que a realidade tenda a relativizá-lo.
A mais completa utopia iluminista

A razão reside essencialmente aqui: a hipótese de integrar todos os livros na rede, de ter todo o conhecimento disponível e à mão de poderosos algoritmos criados pelos motores de busca (versão profana da omnisciência divina) corresponde à realização mais completa da utopia iluminista.

Mas, como sabemos desde Adorno e Horkheimer, a dialética do Iluminismo cria também as suas sombras. Nicholas Carr, um estudioso americano das novas tecnologias, publicou em 2008 um artigo na revista "The Atlantic" cujo título mostrava bem como ele tinha feito uma prospeção desse lado mais negro: "Is Google Making us Stupid?".

Numa frase inicial descobrimos logo a tese do autor: "Dantes, eu era um mergulhador num mar de palavras. Agora, deslizo pela superfície como um tipo numa mota de água." Carr, importa acrescentar, não se fica apenas pelo lado sombrio. E as suas teses têm merecido bastantes críticas.

Mas algumas dessas teses encontraram fórmulas convincentes, empiricamente verificáveis por todos nós.

Como aquela, escrita num livro que publicou recentemente, em que volta à sua tese de que a Internet está a mudar o nosso cérebro, destruindo o nosso poder de concentração e incentivando formas de pensamento que enfraquecem o poder de reflexão. Aí, diz ele que o ecrã por onde acedemos à rede é "um eco-sistema de tecnologias de interrupção".

NOTA - Para a elaboração deste artigo, foi usada a seguinte bibliografia: Robert Darnton, "The Case for Books. Past, Present and Future" (2009); Nicholas Carr, "The Shallows. What the Internet Is Doing to Our Brains" (2010); Roger Chartier, "Histoires de la lecture. Un bilan des recherches" (1995); Hans Blumenberg, "Die Lesbarkeit der Welt" (1979; ed. italiana "La leggibilità del mondo").

Texto publicado na revista Atual de 12 de fevereiro de 2011

Fonte: António Guerreiro (www.expresso.pt)

A construção da imagem brasileira em Cabo Verde - I

No século XIX, o Porto Grande da ilha de São Vicente retoma a ligação comercial entre os dois países, marcada pela freqüência expressiva dos barcos brasileiros.

Cabo Verde tem mantido as velhas parcerias comerciais (Estados, Unidos, Portugal, França, Holanda etc.), no entanto mostram-se pertinentes as relações que foram engendradas com o Brasil, que ganharam maior expressão no governo Lula. Na verdade a História nos reserva alguns indícios frisando que "antes do Brasil conhecer Cabo Verde, Cabo Verde já tinha conhecido o Brasil".

Pedro Álvares Cabral passou primeiro pelas águas de Cabo Verde, mais precisamente em São Nicolau "para se refrescar e fazer aguada". Este era um dos atrativos que a localização geográfica das ilhas oferecia, constituindo-se em um entreposto comercial e um lugar para repousar antes de dar continuidade à navegação.

Nesta empreitada, alguns produtos de Cabo Verde, tanto de reino vegetal como de animal, acabaram por chegar pela primeira vez ao Brasil. Aí começa a troca comercial entre as duas regiões no século XVI. O Brasil recebeu, via Cabo Verde, a palmeira da Índia, cana de açúcar vindo da capitania de ilhéus, a semente do arroz e inhame. Da mesma forma chegaram ao Brasil as primeiras vacas, cavalos, ovelhas e cabras vindos de Cabo Verde.

O Nordeste brasileiro também recebeu escravos ladinizados de Cabo Verde, uma vez que o controle do comércio escravocrata português era controlado a partir da ilha de Santiago (Ribeira Grande - Cidade Velha), na qual era obrigatório o despacho dos escravos após o pagamento dos impostos à coroa portuguesa. Ainda em Santiago os escravos passavam pelo processo de catequização e batismo, só assim seguiam para as ilhas caribenhas e Antilhas, Honduras, Colômbia e Brasil. Em contrapartida Cabo Verde recebeu do Brasil o milho grosso, feijões e, em menor escala, a cultura de mandioca, que foi levada também para outras partes do continente africano.

No século XIX, o Porto Grande da ilha de São Vicente retoma a ligação comercial entre os dois países, marcada pela freqüência expressiva dos barcos brasileiros que faziam escalas nestes portos com destino à Europa. A conseqüência desse relacionamento foi o legado cultural e uma troca de experiências entre os povos.

Desta forma, começara a germinação do carnaval brasileiro na cidade do Mindelo (São Vicente). Também neste sentido verificou-se uma influência na musicalidade e na literatura, tendo o país recebido do Brasil a influência literária dos escritores nordestinos, tais como Josué de Castro, Manuel Bandeira, Jorge Amado, entre outros.

Esta influência serviu de suporte para alavancar o movimento literário cabo-verdiano "Claridade". O intercâmbio cultural foi aumentando ao ponto de se referir a Cabo Verde como um pedaço do Brasil, embora a história nos mostre que o Brasil foi antes um "pedação" de Cabo Verde.

Já no século XX, mais concretamente na década de 1960, Cabo Verde figurava na política externa brasileira como um ator irrelevante e nunca tenha despertado a atenção da política externa brasileira pelo menos nestes períodos e de certa forma nem a África em si.

No imediato Pós-Segunda Guerra Mundial começa a ser quebrado o silêncio e a ausência da África na política externa brasileira, iniciado pelo governo de Juscelino Kubitscheck (1956-1961). Neste ponto Cabo Verde não interessava muito ao governo brasileiro. A África vivia neste momento sob domínio colonial português, tornava-se então difícil para o governo de JK criticar e tomar uma posição coesa em relação aos problemas que alastravam no continente escravizado, por conta das relações que o Brasil possuía com Portugal.

Entretanto o governo Quadros (1961-64) abordou a África com outro perfil, percebendo a importância da sua localização geográfica, principalmente de Cabo Verde, e a potencialidade do mercado africano, embora não tenha registrado grandes avanços na participação dos problemas africanos e nem no que tange às relações comerciais.

Pedro Andrade Matos é cabo-verdiano e mestrando em Ciência Política pela UFMG - Universidade Federal de Minas Gerais

Fonte: africa21digital.com

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Expedição faz rota dos Kariri

Foto: Augusto Pessoa
Os meninos da Fundação Casa Grande estão percorrendo os caminhos vividos pelos índios Kariri

Nova Olinda. É deste Município que os aventureiros, em busca dos Caminhos da Chapada, partem. Durante seis dias, as primeiras, belas e inesquecíveis imagens são registradas pelas câmeras do veterano fotógrafo e jornalista paraibano, Augusto Pessoa, e os integrantes da Fundação Casa Grande, Samuel Macedo, fotógrafo, e Hélio Souza, na captação de imagens para produção de vídeos para o catálogo na pasta de making-off.

Foram mais de 1.300 quilômetros percorridos em sete cidades da região. Pontos mitológicos, encantados. Na rota dos índios Kariri, o grupo segue no rumo das águas, no projeto denominado Expedições Caminhos da Chapada.


Organização

O trabalho tem a direção de Alemberg Quindins e coordenação científica de Rosiane Limaverde, diretores da Fundação Casa Grande, em Nova Olinda, instituição responsável pelo projeto. Com apoio do Ministério do Turismo e em uma das cidades escolhida como cidade turística do Brasil, a pretensão do projeto é fortalecer o turismo de base comunitária e divulgar a região do Cariri no Brasil e mundo afora. Isso já vem sendo feito pela instituição, por meio de uma exposição itinerante.

Viagens

Ano passado, foram visitados países da Europa, incluindo Itália e Portugal, e Estados do Brasil, levando na bagagem dos Meninos da Casa Grande, música e imagens de rara beleza da região, além das histórias contadas por Alemberg, sobre as histórias mitológicas e encantos da região. A arqueóloga Rosiane Limaverde tem sido uma das responsáveis pelo trabalho de levantamento dos sítios arqueológicos e o desenvolvimento de estudos científicos por meio da Fundação Casa Grande.

Atualmente, está cursando doutorado em Portugal. A parceria com a Universidade de Coimbra é desenvolvida junto ao projeto das Expedições Caminhos da Chapada.

E foi por Missão Velha que tudo começou. Na cachoeira onde os índios Kariri fizeram pousada e os primeiros habitantes da região entraram. O planejamento eficiente do grupo veio em uma das melhores épocas do ano para se captar imagens, que servirão para a produção de um livro/catálogo sobre a Fundação Casa Grande - Memorial do Homem Kariri. A Chapada é cenário. A valorização da paisagem natural e a cultura como marcas fortes entram como esteio da produção.

Fotografia

Mais de três mil fotos foram captadas nos primeiros dias de trabalho. A próxima expedição acontece em março. A trupe, coordenada por Alemberg, dá passos importantes nos registros de uma caminhada, demarcada pelos indígenas. Os lugares encantados, onde as comunidades vivenciam muito bem as lendas e a vida real como quase uma coisa, só são visitados pelo grupo. Carneiros de ouro, castelos encantados, mãe d´água.

Depois de Missão Velha, o grupo vai por Lavras da Mangabeira, adentrar na mata. A passagem pelos cânions, entrecortados pelos rios, no Boqueirão de Lavras, possibilita imagens inesquecíveis de um Cariri naturalmente rico.

Sítios arqueológicos nos Municípios de Campos Sales e Crato foram visitados. A Pedra do Convento, um dos sítios com inscrições rupestres, de onde pode ser verificada uma paisagem panorâmica da vegetação da Chapada, e também na caverna de Santa Fé, no Crato.

Madrugada

As primeiras frestas de luz são aproveitadas para imagens dos ferreiros em Potengi. Os homens acordam cedo. O tilintar das batidas nos ferros molda as lâminas em brasa. É preciso para o trabalho acordar às três da madrugada, para aproveitar o sereno da madrugada, a frieza em contraste com o calor do metal. No Boqueirão dos Viana, em Campos Sales, a presença da religiosidade e uma cultura singular dos povos da Chapada.

PRIMEIRA ETAPA
Material já será exposto neste ano na Espanha

Nova Olinda. A primeira etapa dos trabalhos aconteceu de 8 a 13 de fevereiro. Samuel Macedo afirma que, esse primeiro momento, foi uma experiência única. "Alguns desses pontos já conhecíamos, mas são encantadores pela beleza", diz. O fotógrafo destaca a boa quantidade de material coletado. "É a parte que chamamos de Caminho das Águas", diz Samuel, ao relatar a rota que incluiu os boqueirões, nascentes e mães d´água e toda a região. "Pudemos registrar a força das águas neste período", acrescenta ele. E esse material já será exposto este ano em viagem à Espanha, ainda no primeiro semestre.

Segundo Samuel, esse primeiro momento serviu de modelo para os próximos passos. "Registramos tudo, desde a quilometragem, pontos dos sítios no GPS, vídeos com depoimentos nossos e dos moradores das localidades visitadas". E tem mais lugares. A Gruta do Farias, em Barbalha. Naturalmente bela, pelas águas subterrâneas, estudada pelos espeleólogos.

No Crato, a bela paisagem da Pedra do Batente. É um dos mirantes mais visitados da região. As paisagens das localidades de Arajara, em Barbalha, e na cidade de Jardim, foram as derradeiras paragens do grupo nessa primeira leva. No final do dia, mais trabalho esperando pelo grupo. Extasiados pela beleza, e concentrados, planejam os dias posteriores da expedição.

Algumas cidades da Espanha serão visitadas. Um convite do Futebol Clube Barcelona está incluído na agenda. Durante uma semana, a equipe da Casa Grande estará em Barcelona para divulgar as belezas, a cultura e o projeto para os espanhóis.

MAIS INFORMAÇÕES
Fundação Casa Grande
Avenida Jeremias Pereira, 444, Nova Olinda/ Telefone: (88) 3546.1333
Escritório - Crato: (88) 3521.8133

Elizângela santos
Repórter

Fonte: Diário do Nordeste