domingo, 11 de setembro de 2011

Ciência e sagrado: aliados para a medicina popular

Pajé Luís Caboclo diz que além de ter dia certo para preparar o lambedor, o cuidado com a extração das ervas é essencial

Tanto do mar quando do sertão, os povos continuam a prática de aliar os benefícios das ervas medicinais à fé para cura de enfermidade

Caucaia. "Pai-Tupã nos dai força/ Para nós aqui lutar/ Fazer esse lambedor/ E o doente vir curar". Lambedor é que nem feijão com arroz. Um bom preparo faz toda a diferença. Cacique Pequena, índia jenipapo-kanindé, de Aquiraz, diz que é preciso pensar coisas boas. Ou seja, não basta colocar na panela, tem que saber porque está colocando. Os índios da praia e os sertanejos do semiárido aliam o conhecimento fármaco das ervas medicinais e a posição dos astros ao poder da oração na cura dos enfermos. Fazem remédios de tudo o que a natureza pode oferecer. E "oferecer" aqui inclui no sentido da própria vontade da natureza. "O homem tem que pensar junto com ela, nunca separado", diz pajé Luís Caboclo, índio Tremembé. Com pensamento na cura, ciência e sagrado se aliam com um mesmo objetivo: saúde.

A diferença entre a água comum e a "água benta" é o quanto de intenção que se deposita ali. A antropologia explica com a cultura. A ciência metafísica chama de poder da mente, as culturas dos povos chamam de fé. É o que defendem as rezadeiras, benzedeiras e os guias espirituais indígenas. "Tem gente de Fortaleza que vem para a Encantada só fazer a ´meizinha´. O menino do doutor ´tava´ muito gripado, fiz um litro de mel lambedor", diz cacique Pequena. Um lambedor poderoso precisa ter raiz de vassourinha (nome científico Scoparia dulcis), campim-santo (Cymbopogon citratus Stapf), alho (Allium sativum) e outros produtos da natureza também conhecidos como mastruz, cidreira, eucalipto etc.

Cacique Pequena passa para seu povo as receitas de lambedores que vem passando entre gerações. A oficina aconteceu durante o I Encontro Sesc de Povos do Mar, em agosto
FOTO: MELQUÍADES JÚNIOR

Existe mistura para o combate a vários tipos de doença. "Mas se você não botar fé, aquilo ali num vai valer de nada", esclarece. Segundo a índia, o remédio é um conjunto de forças. "A energia já vem na planta. E eu vou fazendo o mel e pensando nas orações ao pai-tupã. E depende das energias também de quem está ao redor, pessoas que pensem o contrário das coisas boas, podem atrapalhar, a gente tem que ser mais forte". Fora da linguagem indígena, pai-tupã pode ser resumido a "Deus", na cultura dos povos o maior criador de todas as coisas. A dona de casa Maria da Penha, da comunidade de Pacheco, em Caucaia, dividiu a preparação de um lambedor com a cacique Pequena. As duas mulheres participavam do Encontro dos Povos do Mar promovido pelo Sesc na Praia de Iparana, em Caucaia. "A gente não faz orações, só fica com o pensamento bom quando ´tá´ fazendo", diz Maria da Penha.

E se o ser humano é apenas um ponto minúsculo em um gigante universo, os populares que fazem preparos com as ervas medicinais (e especialmente os índios) apontam a interferência dos astros, dos planetas e da lua na concepção do remédio. O cacique João Venâncio, da etnia Tremembé, em Almofala, Município de Itarema, diz que não tem uma receita de plantas medicinais que, ao ser preparada, deixe de levar em conta a "linguagem do céu". Os Incas, povo que vivia entre Peru e Chile antes da invasão dos espanhóis, só faziam o plantio com a orientação dos astros. Bem antes deles, estiveram os egípcios e os hebreus (há mais de quatro mil anos). A diferença entre essas práticas que fundem ciência e sagrado é que hoje estão muitas vezes relegadas ao plano das expressões culturais das comunidades.

Projeto
Mas na Universidade Federal do Ceará (UFC) é desenvolvido o projeto "Astronomia agrícola aplicada à agricultura orgânica", já tema de reportagem no Caderno Regional no ano de 2008. O projeto foi criado sob a coordenação do professor doutor em Bioquímica Vegetal, João Batista Freitas.

De acordo com o estudioso, o plantio em diferentes fases da lua pode provocar alterações nas plantas, desde a quantidade de folhas, frutos, altura do vegetal e sua maior fixação ou não no solo. Dessa forma que, segundo o professor, a aproximação da lua pode gerar efeitos negativos na agricultura, assim como o plantio, quando a lua estiver longe, pode causar uma melhor fixação no solo. Esse acompanhamento ajudaria no controle de pragas. A astronomia agrícola estuda o comportamento dos astros e sua relação no desenvolvimento das plantas. Os povos indígenas e sertanejos não se apropriam do termo, mas usam o conhecimento. (MJ)

MAIS INFORMAÇÕES
Astronomia Agrícola aplicada à Agricultura Orgânica
Universidade Federal do Ceará
(85) 3366.9613 / 3366.9713

ERVAS MEDICINAIS

Ancestralidade fortalecida

Enquanto preparam lambedores, garrafadas e méis, índios Tremembé repassam cultura ancestral

Almofala. Para cada doença, uma ou mais ervas. Para todo e qualquer mal, uma natureza inteira oferecendo uma ou várias soluções. É com esse pensamento que os índios Tremembé, do distrito de Itarema, em Almofala (zona norte do Ceará) indicam os mais diversos remédios para os doentes que pedem uma "sugestão". A sabedoria popular é repassada aos mais novos, e ganha legitimidade (e continuação) a cada "remédio" tomado e doença "expurgada". A medicina popular tenta não entrar em conflito com a medicina convencional. Os índios repercutem para as pessoas que os procuram como eles próprios fazem para acabar o mal no corpo.

"No nosso organismo temos um ´vermezin´ que briga contra a doença. A doença tem uns ´microbiozin´ que entram e brigam com a gente. Todos temos um câncer, só muda que em algumas pessoas ele uma hora fica mais forte que os nossos ´vermezin´, aí acaba instalando a doença", explica o pajé Luís Caboclo, guia espiritual dos índios Tremembé.

Ele defende a boa convivência com a natureza como uma forma de o homem conseguir dela o que deseja. O pajé tem 60 anos e se gaba de ser saudável. "Eu não me troco por um cabra novinho, não. A mulher até hoje ainda tem ciúmes", brinca, sobre sua "juventude".

Cultura oral
Mas a transmissão do conhecimento pela oralidade é repercutida não só nas gerações de pajés. De tanto resolverem por si só muitas doenças que os assolam, os Tremembé já sabem o que fazer quando bate uma tosse com secreção no peito. Correm para o verde, catam as folhas "certas" e preparam chás e méis. O cacique João Venâncio deu a este repórter uma receita para gripe, "daquelas que tosse mas o catarro não sai": bater três ovos de galinha caipira com casca e tudo em um vaso com 15 limões cortados e espremidos. Em seguida colocar um pouco de mel de abelha e deixar em banho-maria por três dias "no sereno". "Fica tomando uma colher de manhã, outra meio dia e mais uma à noite", explica. Se a gripe for de muito tempo, recomenda repetir a receita oito vezes, e não deixar de tomar um só dia, para não "quebrar" o efeito.

Receitas diferentes
O cacique diz que são várias as receitas, para cada pessoa, idade e nível de doença. "Tem que ver o momento certo de preparar, não é qualquer dia. Se a maré estiver rasante não pode", conta.

O cuidado se repete com a forma de extrair folha das plantas. "Tem que ter cuidado para não estressar a planta. Tem muita coisa que a gente pode conseguir na natureza sem precisar pagar", afirma o cacique, referindo-se aos remédios na farmácia que, segundo ele, fazem a dor passar, "mas não tira a dor de dentro do corpo da gente, ela ainda está ali".

O pajé Luís Caboclo, que é, por lei Estadual, Mestre da Cultura Popular Tradicional do Ceará, ressalta que a natureza tudo oferece, e cabe ao homem oferecer amor.

"Quando nós não ´fala´, as pedras falam", retruca ele que quando prepara os remédios diz ter contato espiritual com os "encantados". (MJ)

MELQUÍADES JÚNIOR 
REPÓRTER

Obra resgata história afetiva de Independência

Flávio Paiva é autor de obras diversificadas, com destaque para obras infantis e ainda o livro de memórias
MAURÍCIO ALBANO

Flávio Paiva lança livro de memórias e a renda será revertida para a compra de um terreno para a ONG História Viva

Independência. O jornalista e escritor Flávio Paiva, natural deste Município, lançou  na sua cidade natal sua mais recente obra: "Toizinho e Socorro, uma intensa e fervorosa flor". No livro de memória, o autor trata da infância, adolescência e do amor que uniu seu Toizinho e Dona Socorro (pai e mãe do escritor). O lançamento, foi seguido de autógrafos.

A obra do escritor Flávio Paiva traz a trajetória de seu pai Toizinho Rodrigues, um agropecuarista, que durante anos criou ovelhas e carneiros da raça Bergamácia e Santa Inês em Independência, onde a ovinocaprinocultura destacava-se na economia regional.

Assim, nasceu neste meio em contato com a natureza e feiras agropecuárias sobre raças de ovelhas que seu pai participava. Seu Toizinho foi reconhecidamente vencedor em vários eventos no Ceará.

Na ocasião do lançamento do livro, foi comemorado o aniversário de 90 anos do seu Toizinho Rodrigues, que é uma pessoa conhecida em todo o Município como produtor agropecuarista da localidade.

Independência está distante 390 quilômetros de Fortaleza, fica próximo aos Municípios de Crateús, Tauá e Boa Viagem, na região do Sertão Central

Retomada
Segundo Francisco Ricardo Assis, presidente da ONG História Viva, a renda da venda de livros será revertida para a entidade. "Nosso esforço é o desenvolvimento cultural do Município, que ficou travado no tempo", disse ele.

Com o livro, o presidente da ONG acredita numa retomada na atividade cultural no Município.

Segundo Francisco Ricardo, a iniciativa do escritor se constitui num resgate histórico e afetivo de pessoas que são referências para a cidade, no caso seus próprios pais.

Além disso, tem um caráter filantrópico, uma vez que a renda deverá contribuir na aquisição do terreno, no sentido de ampliar o leque da ONG na promoção da cultural local.

A ONG História Viva existe desde 2007, e já fundou uma biblioteca comunitária, com mais de 2 mil livros, um clube infantil e já venceu vários prêmios culturais, inclusive um sobre a biografia de Machado de Assis, escrita em cordel.

Causas sociais
A ONG também está inscrita na Secretaria de Cultura do Estado (Secult) e funciona num espaço exíguo, a antiga estação ferroviária, daí a necessidade de expansão de área construída.

"O escritor Flávio, sempre engajado em causas sociais, irá doar todo o dinheiro arrecadado com a venda dos livros para a entidade filantrópica ONG História Viva para compra de um terreno em que será construído um espaço para teatro, escola de música, capoeira e dança que servirá para as crianças e jovens de Independência".

Colunista
As aulas de teatro, música, capoeira e dança serão gratuitas. Flávio Paiva é colunista semanal do Diário do Nordeste, com publicações todas as quintas-feiras, no Caderno 3.

Além de uma diversificada bibliografia, voltadas para públicos distintos, tem uma atenção especial para a infância.

Para crianças escreveu e compôs "Flor de Maravilha" (20 histórias e 20 músicas), "Benedito Bacurau - o Pássaro que não nasceu de um ovo" (prefácio de Rubem Alves e leitura e ilustrações musicais feitas por Antônio Nóbrega), "A Festa do Saci" (acompanha CD com 13 músicas interpretadas por Giana Viscardi, Marcelo Pretto, Suzana Salles e Orlângelo Leal), "Titico achou um anzol" (aventura com aves e animais da caatinga) e "Fortaleza - de dunas andantes à cidade banhada de sol".

MAIS INFORMAÇÕES:
ONG História Viva - Rua Cícero Justino, 140- Batalhão
Independência /CE
telefone: (88) 92479550

Projeto Residência na Vila das Artes

Térence Pique é francês e vem a Fortaleza participar do projeto com artistas locais

Uma troca de experiências entre artistas locais e um convidado, gerando discussões e processos de criação coletiva. Esta é a proposta do Projeto de Formação Residência, que a Secretaria de Cultura de Fortaleza e o Salão de Abril promovem pela 2ª vez, em 2011, na Vila das Artes.

Desta vez, o francês Térence Pique participa da residência cuja temática é "A questão do espaço e suas representações simbólicas na cidade". O projeto está marcado para acontecer entre os próximos dias 16 e 30.

Natural do Sul da França, Térence estudou História e Teoria da Arte e da Fotografia Contemporânea em Paris, antes de instalar-se em Madrid, em 2009. Grande parte de suas investigações exploram o universo urbano, considerando contradições e complexidades ambíguas. Leva em conta tanto a questão do espaço quanto sua representação, sua produção e/ou sua relação com o social.

A cada edição do projeto, serão três residências com duração, cada uma, de 15 dias, período em que o convidado realiza uma palestra de apresentação e seleciona portfólios dos artistas locais. Ao todo, 15 participantes pensam numa proposta, junto ao residente, dentro da temática em questão.

Ao final do processo, um cearense será escolhido para fazer exposição no país de origem de Térence, a França. O objetivo é ampliar as barreiras territoriais e estreitar as relações dos artistas locais com o mundo.

Os projetos serão registrados e farão parte de um livro, que será lançado no fim do ano, incluindo todos os participantes e textos de colaboradores e pensadores da área.

MAIS INFORMAÇÕES:
Projeto de formação Residência, com o artista Térence Pique. De 16 a 30 de setembro, na Vila das Artes (Rua 24 de Maio, 1221, Centro). Apresentação do artista e leitura dos portfólios dos artistas interessados, no dia 16, às 14h30. Resultado dos selecionados, no mesmo dia, por e-mail. Contato: 3105.1358

Museu do Ceará-Projeto de restauração é solicitado pela Secult


O coordenador do Patrimônio Histórico da Secretaria da Cultura do Ceará (Secult), Otávio Menezes, informou que o órgão solicitou um projeto de restauração do Museu do Ceará ao Departamento de Arquitetura e Engenharia do Ceará (DAE). Ontem, o Diário do Nordeste mostrou que o prédio do museu está com vários problemas estruturais, como infiltrações e janelas e portas quebradas. "As providências com relação à restauração já estão sendo tomadas, mas ainda não temos um prazo de quando ela deverá ocorrer", afirmou Menezes.

De acordo com a Secult, por ser tombado como Monumento Nacional pelo Instituto do Patrimônio Histórico do Ceará (Iphan),o edifício não pode sofrer nenhuma intervenção sem que antes o projeto passe por análise e aprovação do órgão, que, segundo Menezes, enviou profissionais para fazer uma vistoria técnica a fim de investigar onde estão os problemas.

O Instituto se comprometeu a tentar angariar recursos federais para que seja feita a restauração. "Embora no prédio funcione o Museu do Ceará, que é do Governo do Estado, a responsabilidade também é do Iphan, que foi quem tombou o prédio", explica o coordenador.

Reforma
O arquiteto do DAE responsável por elaborar a proposta de restauração do museu, Robledo Valente Duarte, adiantou que incluirá projetos complementares de instalações elétricas e sanitárias. Segundo ele, o maior problema detectado foram as infiltrações no forro e nas paredes.

Os banheiros e a copa também vão passar por reforma. Já a parte de visitação não será modificada. "A ideia é um projeto de manutenção e conservação do museu, principalmente na parte elétrica e lógica", afirma Duarte. Para a coberta, o arquiteto sugere a troca das telhas. Ele diz que o ideal é que haja uma uniformidade.

Inscrições abertas para IX Edital Ceará de Cinema e Vídeo 2011


A Secretaria da Cultura do Ceará (Secult) está com as inscrições abertas até o próximo dia 23 de setembro para o  IX Edital Ceará de Cinema e Vídeo 2011.

Nesta edição, o edital destinará R$ 2,4 milhões, do Fundo Estadual de Cultura (FEC), para o segmento de audiovisual e mais  R$ 600 mil exclusivos para a formação de cineastas, totalizando um valor de R$ 3 milhões para o setor.

Os interessados terão até 23 de setembro para enviar seus projetos nas modalidades de desenvolvimento de roteiro, longa e curta metragem, projeto de TV, novas mídias, além de criação e manutenção de cineclubes. Serão aceitas as inscrições de projetos com data de recebimento no protocolo da Secult ou via Sedex.

Fonte: Diário do Nordeste