segunda-feira, 18 de abril de 2011

Tempo em imagens

Abre amanhã a exposição "Fortaleza: Memórias do Tempo", com fotografias de época que mostram a vida na capital cearense

Fotografias, objetos antigos e até carros que marcaram época. Esse é o apanhado que traz a exposição "Fortaleza: Memórias do Tempo", cuja abertura acontece amanhã, às 20 horas, no Espaço Cultural Porto Freire. O projeto é uma realização do Instituto Cultural Chico Albuquerque e acontece no mês de aniversário dos 285 anos da capital cearense.

Ao todo, são 95 painéis fotográficos, que reconstituem diversos aspectos da vida e dos costumes da cidade entre as décadas de 20 e 70. A mostra inclui ainda painéis com jornais e objetos originais de época. Exclusivamente na abertura do evento, o público também poderá conferir elegantes automóveis antigos de colecionadores do Museu do Automóvel.

"Memórias do Tempo" tem curadoria do colecionador Miguel Ângelo de Azevedo, o Nirez, e cenografia de Lídia Sarmiento. Todas as peças são do acervo do próprio Nirez (muitas recebidas da empresa Aba Film). "São imagens que tratam de diversas vertentes da vida social de Fortaleza nessas décadas, como arquitetura, personalidades e curiosidades. Além dos objetos, como ferro de engomar, microfone de rádio, telefone e placas de ruas antigas", detalha o presidente do Instituto Cultural Chico Albuquerque, Ricardo Albuquerque.

Para além das mudanças físicas e estruturais pelas quais o município passou em sua história, a exposição dá atenção especial às práticas e ao uso que as gerações faziam dos espaços urbanos, com a intenção de evocar, no espectador, sua relação com o ambiente apresentado nas imagens e a reprodução atual de hábitos do passado. Nessa perspectiva, as fotos e objetos foram divididos em áreas temáticas permitindo um passeio pelas velhas memórias, vida urbana, habitantes, trabalho, lazer, cultura e esporte.

PROGRAMAÇÃO

28/04, às 19h30
Fortaleza, casos e curiosidades .
Palestrante: Nirez

18/05 , às 19h30
Comunicação e a importância do rádio no Ceará. Palestrante: Erotilde Honório

21/06, às 19h30
A culinária cearense. Palestrante: Peregrina Campelo

21/07, às 19h30
Costumes, hábitos e comportamento do povo cearense. Palestrante: Zenilo Almada


"A mostra é um manifesto em defesa de outras representações da cidade, contestando as intenções das fotografias tradicionais e revelando outras cidades que existem dentro de nossa cidade tradicional", explica Nirez.

A abertura do evento será ao som dos sambas, toadas, modinhas, choros e lundus que integram a memória poético-musical brasileira. Executado pelo grupo Vozes da Cera, o repertório baseia-se em pesquisas realizadas na coleção de discos de 78 rpm do Arquivo Nirez, que datam de 1902 a 1946, um dos períodos de maior efervescência na produção musical, e de fundamental relevância para a história da música brasileira.

Em cartaz até 30 de dezembro, "Memórias do Tempo" propõe ainda uma agenda de atividades paralelas à mostra fotográfica, com palestras, debates e visitas guiadas de grupos de estudantes.  "Um dos eventos planejados, por exemplo, é sobre jangadas e jangadeiros. haverá outro sobre a história do cinema no Ceará", antecipa Albuquerque.

MAIS INFORMAÇÕESExposição "Fortaleza - Memórias do Tempo". De amanhã até 30 de dezembro, no Espaço Cultural Porto Freire (R. Joãzito Arruda, s/nº, Cidade dos Funcionários). Entrada gratuita. Contato: (85) 3459.0061

ADRIANA MARTINS
REPÓRTER

Fonte: Diário do Nordeste 


Passeio Público Foto: Nirez
Rua Major Facundo Foto: Nirez

Cine Majestic Foto: Nirez

Projeto 'Mostra Piauí Dança' acontece em maio no Ceará

Doze companhias de dança de Teresina realizam a Mostra Piauí Dança no Ceará nos dias 27, 28 e 29 de maio, em Fortaleza. O coletivo é uma plataforma para exibir a dança para outros públicos, interagindo com outros estados.

A proposta das companhias piauienses é realizar uma série de ações contínuas e organizadas pelo centro da capital cearense, incluindo o Teatro José de Alencar, Centro de Convenções, Espaço BNB de Cultura e Dragão do Mar, oferecendo à população a oportunidade de conhecer a produção feita no Piauí.

Segundo Valdemar Santos, da Organização Ponto de Equilíbrio, a Mostra Piauí Dança Ceará tem como objetivo valorizar e divulgar a dança piauiense juntando no mesmo projeto companhias consolidadas do estado.

A programação do evento está praticamente definida e começa no dia 27, às 10h, com visita aos espaços culturais, realização de oficinas e vivências entre artistas de Teresina e Fortaleza e apresentação do Dança Eficiente, Cia Equilíbrio de Dança, Cyntia Layana, Aforá, Só Homens. Cia de Dança, Art Dança e Musical Palmares.

No segundo dia, espaço para bate-papo com artistas, confraternização e apresentação do Grupo Afoxá Dança Afro, no Teatro das Marias, e no dia 29, visita aos pontos turísticos de Fortaleza.

Fonte: 180 Graus

domingo, 17 de abril de 2011

Índios reafirmam cultura com ritual

A Festa do Marco Vivo representa a reafirmação das identidades culturais, na aldeia dos índios Jenipapo-Kanindé

Cacique erê, em revezamento com outros índios, iniciou a caminhada pelo mangue e Morro do Urubu, à margem da lagoa e se emocionou
FOTO: MELQUÍADES JÚNIOR
Aquiraz A "mãe natureza" põe o seu filho no colo. Ele se estrebucha todo e faz traquinagem, mas mãe não dá leite e carinho em filho traquino. Não é obedecer, é respeitar. O resto vem. Em cima de morros e dunas, ao redor da Lagoa Encantada, a vida é celebrada com conquistas e um certificado de luta, e tudo tem vida na aldeia dos índios Jenipapo-Kanindé, em Aquiraz. Um ritual realizado todos os anos, a Festa do Marco Vivo representa a reafirmação das identidades culturais. Uma festa ecológica e sustentável em agradecimento ao pão de cada dia. Em gritos de paz, filhos da mãe natureza e do pai tupã comemoram a decisão judicial definitiva que dá posse da terra aos "índios da Encantada". A um só tempo surge a mais nova liderança do povoado: a jovem cacique Erê.

Embaixo das mangueiras do tio Adorico, sob o teto de folhas, índio Bão e Cacique Pequena comemoram mais um ano de ritual. Estão ali como exemplos vivos da história de luta pelos direitos dos índios. A comunidade comemora e se pinta. A 50km da Capital, na direção do mar, vão chegando outros "irmãos de luta" das etnias Tremembé, Tapeba e Pitaguary. Cada um tem sua história de identificação, demarcação e a sonhada delimitação das terras para que daí sejam homologadas em definitivo para os índios.

O sonho chegou para os moradores daquela aldeia. Há dois meses viram publicado no Diário Oficial da União a declaração de "posse permanente do grupo indígena Jenipapo-Kanindé a terra indígena Lagoa Encantada". Era esse um grande objetivo da luta travada há mais de duas décadas. "E neste ano se inicia uma nova etapa, um novo momento", afirma Juliana Alves, a cacique Erê. Ela assume o posto da mãe, Maria de Lourdes da Conceição Alves, a Cacique Pequena, primeira mulher a assumir essa função numa etnia indígena brasileira. A Festa do Marco Vivo deste ano ganhou novas cores.

O ritual do Marco Vivo, realizado neste ano em 8 e 9 de abril, reúne todo ano os povos indígenas em orações, danças, encontro com seus ancestrais e o pai Tupã, ou simplesmente, Deus. E "que Deus lhe dê muita saúde, vá com a proteção do pai Tupã, abençoe os seus caminhos", desejou Pequena à nova filha Cacique. Erê ouvia as palavras com um tronco de yburana no ombro. Em revezamento com outros índios, iniciou a caminhada pelo mangue e pelo Morro do Urubu, à margem da Lagoa Encantada. Após 40 minutos de trilha, seguida por dezenas de pessoas, Cacique Erê sela mais um ano de Marco Vivo: o tronco de yburana é plantado no chão, para "pegar raiz", e dali uma nova árvore, mais uma para contar a história, assim como outras 13 árvores, que são fincadas desde 1997, primeiro ano do Marco Vivo. Em cantos e rezas, os índios dançam o toré ao redor da yburana, ou imburana, de nome científico Amburana cearensis. Pode atingir até 15 metros de altura, e suas folhas têm indicação farmacológica. Fazem ótimo "peitoral", mel lambedor no combate à tosse, bronquite e resfriado. A semente serve para perfumar roupas e produzir sabonetes.

Agradecimento
Coberto em folhas e com laço de fita, o tronco do Marco Vivo é apoiado pela mão da Cacique Erê em oração. Ela não pede, só agradece. No silêncio de todos que acompanham o ritual, sua voz só é interrompida pelo próprio embargo, da emoção de estar ali, homenageando a própria mãe, que por quase duas décadas liderou a etnia e fez aquele mesmo caminho.

"Ficam os ensinamentos da nossa grande líder: não temos que fazer as vontades dos homens da terra, e sim do nosso pai Tupã", diz Erê, para iniciar de mãos dadas a "oração que o pai Tupã nos ensinou: Pai nosso que estás no céu...".

O cacicado, geralmente só transmitido quando o cacique morre, é singular nesta etnia. Viva e lúcida, dona Pequena promete continuar lutando por seu povo. E onde eles forem, vão as ladainhas da cacique Pequena: "Eu moro numa floresta só vejo os pássaros "voar"/Eu moro numa lagoa só vejo os peixes "nadar"/Moro perto de uma duna, que ela emenda na lagoa/Moro perto de um lago, que ele sangra para o mar/ É que eu vivo na mata enterrada na areia e de pé no chão...".

CELEBRAÇÃO À NATUREZA
Etnia desenvolve turismo comunitário e ecológico
Aquiraz A Festa do Marco Vivo é também uma celebração à natureza. O senso de preservação dos índios Jenipapo-Kanindé é tanto que até mesmo um tronco de árvore que arrancam para o ritual é, por isso mesmo, replantado em outro lugar, para multiplicar a vida. Além de viverem da pesca, da agricultura e da pecuária, os índios desenvolvem o turismo comunitário e ecológico pela Lagoa Encantada. Além do refrescante banho de lagoa, são muitas as áreas boas para trilha e acampamento no Morro do Urubu. No meio do caminho, lindas paisagens de uma natureza que quer se manter distante da ação invasiva do homem.

A homologação das terras da "Encantada" pelo Ministério da Justiça dá espaço para os índios intensificarem o trabalho ecológico no lugar. Está acontecendo o processo de desintrusão. Trocando em miúdos, a empresa Ypióca e alguns posseiros que cercaram área dentro da demarcação indígena terão que sair dali. Então, até mesmo o espaço de trilha ecológica e de cultivo agrícola será ampliado pelos Jenipapo-Kanindé. Eles plantam milho, feijão e batata em regime de sequeiro. Mas o solo é tão úmido e fértil que o fim da estação chuvosa é o melhor período para plantar.

A vegetação que rodeia a Lagoa Encantada é rica em árvores frutíferas. Os adeptos do ecoturismo que vão para lá não perdem a oportunidade de subir nas árvores para colher pitomba do pé. Descascam e comem ali mesmo.

O turismo nessa região litorânea de Aquiraz faz parte da Rede Cearense de Turismo Comunitário (Tucum), que reúne regiões dos povos do mar do Ceará que promovem o turismo sem exploração econômica nem abuso ao meio ambiente.

MAIS INFORMAÇÕES
Visitas à Lagoa Encantada
Município de Aquiraz
Contatos: (85) 9193.34 94 / (85) 9171.61 11 / (85) 9204.65 90

Melquíades júnior
Colaborador

Fonte: Diário do Nordeste

Exposição inédita de Barrica

Esculturas e pinturas do artista estão expostas em "Pinturas de Barrica em tela e cerâmica", em Juazeiro do Norte

Obras do artista plástico juazeirense Barrica estarão expostas até o dia 20 de abril, no Centro Cultural Banco do Nordeste, em Juazeiro, em homenagem aos 100 anos da cidade
FOTO: ELIZÂNGELA SANTOS
Juazeiro do Norte Uma exposição inédita para o Cariri de um dos maiores artistas plásticos da região, Clidenor Capibaribe, o Barrica, está exposta no Centro Cultural Banco do Nordeste-Cariri. O acervo pertencente ao Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará (Mauc -UFC), foi cedido para a exposição até o dia 20 de abril, dentro da programação do centenário da cidade.

São esculturas e pinturas do artista, na exposição intitulada "Pinturas de Barrica em tela e cerâmica". Gratuita ao público, a visitação acontece de terça-feira a sábado, das 13h às 21h. No período de 15h às 21h, os visitantes podem contar com o auxílio de um monitor.

Uma série de eventos marcam o centenário de Juazeiro do Norte, que se realiza em julho. A exposição de Barrica abre um calendário de eventos a serem realizados por meio da parceria com o Centro Cultural. Há também a proposta da Comissão do Centenário para editar e reeditar livros importantes sobre a história de Juazeiro do Norte, o que deverá se concretizar até o fim do ano.

Até julho, serão 20 edições lançadas, e mais uma pela UFC. Exposições de fotografias e artes plásticas também estão no cronograma. Serão investidos, por meio de projetos, cerca de R$ 600 mil em exposições e lançamentos.

Para a mestre em Artes Visuais, professora e curadora da exposição, Adriana Botelho, a mostra oferecerá ao público uma excelente oportunidade para conhecer um pouco mais de um dos principais artistas do movimento modernista, discutindo as afinidades de sua arte, bem como a sua influência na arte cearense. Clidenor Capibaribe, o Barrica, nasceu em Juazeiro do Norte, em 1913, e faleceu em Fortaleza, em 1993. Segundo a doutora em Sociologia da Arte, Kadma Marques, a história das artes plásticas no Ceará passa de maneira inevitável pela presença de Barrica. A essa trajetória está marcada por meio da Fundação do Centro Cultural de Belas Artes (CCBA - 1941/1944) e da Sociedade Cearense de Artes Plásticas (SCAP - 1944/1958).

"Além das associações que congregaram os artistas do pincel em torno de ideais, como aquele que manteve a realização do salão cearense mais tradicional - o Salão de Abril - sob a responsabilidade da SCAP, no período de 1946 a 1958", lembra Kadma.

Discorrendo sobre a arte de Barrica, o diretor do Mauc, Pedro Eymar, afirma que a década de 1950 apresenta um Barrica personalizado e comercialmente aceito. "Desenha com cores e as paisagens florescem de sua alma profunda para uma interface plástica tensa, onde matéria e gesto disputam com a figuração o primeiro plano da fruição estética", explica.

Pedro Eymar relembra que, em 1961, Barrica esteve presente na exposição de abertura do Museu de Arte da UFC. Na ocasião, esteve ao lado de Chico da Silva, Sérvulo Esmeraldo e Raimundo Cela. O artista expôs sua vibrante interpretação dos subúrbios e abstratas composições em irreverentes cerâmicas. No mesmo período, Barrica instalou junto ao Mauc uma oficina de cerâmica, provida de forno, do qual procedem muitas das cerâmicas da presente mostra.

O gerente do Centro Cultural, Lênin Falcão, espera um bom público. Uma das intenções era fazer um trabalho com professores de escolas públicas, com a promoção de um encontro de educadores e palestras para os docentes. A proposta é abrir possibilidades de trabalhar a exposição e o artistas dentro de sala de aula. Será distribuído material didático e em seguida a realização de visitas. O centro irá disponibilizar ônibus para os alunos das escolas de Juazeiro.

Novos artistas
Há uma ideia do Centro Cultural de trazer artistas de fora, para que o público local possa conhecer, e abrir para a participação de artistas de Juazeiro do Norte e do Cariri. "Há profissionais com um longo período de trabalho ou no caso do Barrica, que já faleceu. Essa exposição do Barrica vem sendo estudada desde o ano passado Pedimos a curadoria para participar do edital e a proposta foi aprovada. É importante o resgate deste artistas, que são desconhecidos da maioria das pessoas", ressalta.

Ele destaca que o Centro Cultural Banco do Nordeste tem trabalhado de forma especial o centenário da cidade e os cinco anos do Centro Cultural. Em maio, haverá exposição de vários artistas de Juazeiro, na comemoração dos cinco anos, e, em julho, dentro do centenário, exposição de uma artista pernambucana, Ana Veloso, que traz no seu trabalho a religiosidade e Padre Cícero.

MAIS INFORMAÇÕES Centro Cultural Banco do Nordeste- Região do Cariri
Telefone: (88) 3512.2855 / 8802.0362
lenin@bnb.gov.br

Elizângela santos
Repórter

Apoio ao artesanato indígena

Índios de vários Municípios do Estado do Ceará levam suas peças artesanais para a loja da Ceart em Fortaleza

Diversas peças da cultura indígena estão expostas na Ceart
FOTOS: THIAGO GASPAR
Fortaleza A natureza é celebrada pelos índios com artesanato. As singularidades culturais são cultivadas em "bio-jóias" de cada novo colar de sementes, cocá, ou mesmo nas tintas vegetais que transformam desenhos no corpo. O artesanato popular indígena pode ser encontrado muito antes das aldeias de cada etnia. Em parceria com a Central do Artesanato (Ceart), a Federação das Indústrias do Ceará (Fiec) apoia a produção artesanal étnica, que pode ser conferida em Fortaleza na Loja de Artes Indígenas Toré Torém.

Pelo menos seis etnias indígenas estão levando suas peças artesanais para a loja em Fortaleza, proporcionando a apreciação dos não-índios e gerando trabalho e renda para os povos indígenas: Tapeba (Município de Caucaia), Pitaguary (Municípios de Itarema e Acaraú), Jenipapo-Kanindé (Aquiraz), Kanindé (Aratuba) e Tabajara (Poranga). Têm de colares de sementes a arco e flecha para decoração. Peças de barro são utensílios domésticos, e camisas ilustradas revelam as caras e cores dos índios do Ceará.

A arte Tapeba é uma das mais procuradas. Os índios Ivonilde e Flávio Tapeba tentam atender à demanda. Além da compra direta na loja tem cliente que encomenda os produtos. Fazem sucesso as ´quartinhas´, potes de barro de médio porte para água potável, e os arco e flecha para decoração de parede.

Os Pitaguary produzem colares de sementes e bolsas de palha; os Tremembé de Almofala, em Itarema mandam colares, potes e camisas com a "rosa do torém" - índios em ciranda, símbolo daquela etnia.

A Loja de Artes Indígenas Toré Torém é mantida pelo Instituto de Responsabilidade Social, da Federação das Indústrias do Ceará (Fiec), com apoio da Central de Artesanato do Governo do Estado.

As peças produzidas pelas etnias são diversificadas e encantadoras, de colares a artigos de decoração
Preços
É aberta de segunda a sábado convergendo as peças artísticas e artesanais das etnias, evitando a exploração econômica por atravessadores. O preço das peças é dado pelos próprios índios, que recebem o "valor justo". Apenas uma pequena porcentagem fica para auxílio de manutenção do lugar, que funciona diariamente de 9 às 18 horas e de 10 às 15horas aos sábados.

Os preços variam de R$ 4,90 (um colar de sementes) a R$ 32,90 (um ponte de cerâmica). Em cada produto uma etiqueta com o nome da etnia e do artesão que fez.

A loja é o grande braço da Fiec no Programa de Difusão da Cultura Indígena. Realidade material, criatividade, espiritualidade e imaginário coletivo são repassados para além das aldeias, atingem os não-índios como uma forma de reafirmação da identidade indígena no Estado do Ceará.

"A cultura indígena, cortada no tronco pela colonização, possuía raízes e, com o tempo, os sinais de sua existência voltaram a brotar.

O que foi jogado na clandestinidade continua existindo, embora sem o reconhecimento da cultura oficial. As culturas de tradição indígena vão, de pouco em pouco, reaparecendo, mostrando suas marcas nas cerâmicas, nos trançados, na tecelagem e até nas pinturas realizadas em tela", diz o pesquisador Roberto Galvão em seu livro "Arte Tremembé", sobre a resistência do povo indígena do Litoral Oeste do Estado.

Difusão
O Programa de Difusão da Cultura Indígena, da Fiec, tem três eixos principais: No de Cadeias Produtivas faz Estruturação de novos grupos de produção de artesanato indígena e fortalecimento dos grupos já existentes, proporcionando a comercialização desses produtos por meio da Loja de Artes Indígenas localizada na Ceart, administrada pelo Instituto Fiec em parceria com a Secretaria de Empreendedorismo do Governo; Em Ações Socioeducativas, disseminar a cultura e o valores de uma educação para a sustentabilidade, estimulando a participação comunitária em torno das atividades realizadas nos Centros de Artes das aldeias Indígenas.

No eixo de Memória e Patrimônio Cultural atua em projetos voltados para disseminar e difundir a cultura indígena, com ações respaldadas no resgate histórico das tradições e a sua importância para a constituição da cultura indígena cearense, tendo como destaque o Projeto Exposição Arte Indígena e o Acervo Indígena, composto por mais de 600 peças de diferentes tipologias de artesanato.

FIQUE POR DENTRO
As várias etnias

A igreja de Nossa Senhora da Assunção de Almofala dos Tremembé é referência na luta pelas terras do antigo aldeamento indígena. A "igreja dos índios" foi soterrada pelas dunas em 1892 e assim ficou por 50 anos, causando dispersão dos Índios Tremembé para as localidades de Córrego do João Pereira e Camondongo (Itarema), Queimadas (Acaraú), e São José e Buriti (Itapipoca).

Em 1996, o índio Kanindé José Maria Pereira dos Santos, o "cacique Sotero", incentivou a abertura para visitação pública ao "Museu dos Kanindé", que traz em seu acervo artesanato, com destaque para os trabalhos de madeira, instrumentos de caça e dança até então mantidos sob sigilo.

Os índios Tapeba têm uma recheada agenda cultural, com participação das outras etnias. Em julho acontecem os jogos indígenas estaduais, com todos os povos; em agosto ocorre a feira cultural do povo tapeba, os jogos indígenas tapeba e o ritual de purificação das crianças.

Em setembro ocorre a festa da carnaúba e inicia a fabricação do mocororó. Em 3 de outubro comemora-se o dia do índio tapeba. Dezembro é o mês da colheita da mandioca e das celebrações da "farinhada". Em mais uma iniciativa de afirmação étnica, os índios Potyguara, de 20 comunidades nos Municípios de Crateús, Monsenhor Tabosa, Novo Oriente e Tamboril retomaram a pesquisa e o ensino do Tupi, a língua ancestral.

MAIS INFORMAÇÕES
Loja de Artes IndígenasPeças de artesanato, Município de Fortaleza
Telefone: (85) 3224.7291

PATRIMÔNIO IMATERIAL
Manifestações artísticas e culturais
O valor imaterial difundido nas danças, brincadeiras, cânticos e orações revelam a resistência de um povo
Aquiraz O artesanato se soma às outras manifestações artísticas e culturais dos índios. O valor imaterial difundido nas danças, brincadeiras, cânticos e orações revelam a resistência do povo, sua história de vida. Em pelo menos 13 principais etnias espalhadas pelo interior, os índios dialogam arte e cultura com o senso de preservação ambiental. Aos poucos, são reconhecidos pelos não-índios, que passam a perceber os povos indígenas fora dos estereótipos de seres desnudos e pintados. Primitivo é esse pensamento.

É fato que 30 anos atrás era bem mais difícil compreender a existência de índios no Ceará. Sempre existiram donos naturais das terras bem antes da colonização, mas, com a chegada dos europeus, a aculturação foi tanta que até mesmo entender-se índio era um desafio para grupos que hoje se definem de etnias indígenas. Sim, o Ceará é terra de índios. Eles estão espalhados pelo interior, desde a Região Metropolitana de Fortaleza. Entretanto, não espere povos vivendo em ocas, isolados, essa segmentação há muito deu lugar à integração. De acordo com o antropólogo Sérgio Brissac, modo de vestir ou de falar não é definidor da identidade indígena.

Estereótipos
"Sou índio" é uma afirmação que transcende os estereótipos. A comunidade Tapeba, em Caucaia, é um típico povoado de interior. O atraso ou a modernidade lá chegou na mesma velocidade com que povoados de não-índios. A diferença está na identificação com a ancestralidade. E nas últimas décadas, reconhecendo seus direitos indígenas, dezenas de grupos reacendem a chama de suas singularidades, suas expressões culturais mais tradicionais, sagradas. Os mais jovens entram na roda da luta desde pequenos - existem cerca de 40 escolas indígenas em 16 Municípios do Estado.

O artesanato é uma forma de chegar a outros lugares e dizerem "sim, nós existimos".

O reconhecimento, a demarcação e a homologação de terras indígenas cearenses é, para os índios, pretexto bom para o convite aos não-índios conferirem o que eles têm de melhor: a cultura. Quem vê, toca e sente, só chega a uma conclusão: "é, eles existem".

Fonte: Diário do Nordeste