domingo, 27 de fevereiro de 2011

Mergulho na cultura popular

DIVULGAÇÃO

Arte que é artesanal, que vai para galerias de todo o mundo, mas não se esquece de levar consigo o sertão cearense. Com suas referências à cultura e à arte populares, Efrain Almeida talha a infância em Boa Viagem em madeira no Rio de Janeiro

Nascido em Boa Viagem, crescido em Fortaleza e feito artista no Rio de Janeiro, Efrain Almeida nunca deixou de lado sua raiz sertaneja. Suas influências visuais são memórias da infância sertaneja: os entalhes dos artesãos, os ex-votos das igrejas, os pintinhos do terreiro. A mãe cuidava do jardim, e o pai se ocupava com a marcenaria. Quando se mudou para o Sudeste, quis estudar arte.

Começou pintando. Entre suas experimentações, utilizava a madeira como tela. Hoje se dedica mais à escultura, que talha na umburana, que conhecia dos tempos de criança, do terreiro da mãe e do trabalho do pai. Cheias de lirismo, as imagens de Efrain abordam questões do corpo, da sexualidade, da religião, da natureza. Artista contemporâneo mergulhado em cultura popular.

Em entrevista ao O POVO, Efrain fala de sua obra e comenta, com propriedade, as relações entre arte e artesanato e o preconceito que ainda existe quanto à aceitação da arte popular como peça dotada de valor e requinte, tanto na utilização em ambientação quanto na exposição em galerias. (Alinne Rodrigues)

O POVO - Na sua obra, a influência do artesanato é muito forte. Você faz figuras pequenas, esculpe em madeira. Como essa técnica artesanal começou a fazer parte da sua obra?
Efrain Almeida – Não foi uma coisa proposital. Tem a ver com o processo de trabalho e das questões que me interessam. Inicialmente eu fazia pintura, mas já usava madeira como suporte. Depois, com o processo de trabalho, passei para a escultura. Comecei a utilizar madeira como matéria mesmo. As imagens são sempre referentes à minha história. Fui pesquisar materiais. Antes utilizava o cedro, mas, de uns anos para cá, mudei para a umburana, uma madeira que tem toda uma tradição, que é utilizada na confecção de brinquedos artesanais. A escolha tem a ver com essa ideia de um certo imaginário popular. A coisa da artesania sempre me interessou. O meu trabalho de pintura também era muito meticuloso, rebuscado. Acho que a artesania na pintura é uma característica, tem o gesto, a mão, assim como o artesanato e a escultura.

OP - Você usa uma técnica artesanal, material artesanal, mas não faz artesanato. Como uma técnica e um estilo de artesanato pode se tornar arte? O artesanato é utilitário, e a arte não é?
Efrain – Isso é muito complexo. Existe artesanato que é arte e artesanato que não é. Existe o artesanato comercial, que as pessoas fazem por uma ideia de identidade local e vão repetindo aquilo por tradição. Existem artesãos que têm um trabalho muito específico que você pode classificar como artista, que está fora do utilitário. O cara cria um imaginário. E existe ainda a questão da arte contemporânea e a arte popular: quando um contemporâneo usa uma técnica artesanal, existe um conceito; existem também os ingênuos, que têm a ver com tradição, sem um pensamento.

OP – É por isso que peças de artesãos e artistas têm valores comerciais tão distintos?
Efrain – O valor da arte é um valor completamente abstrato, que tem a ver com o mercado, com um sistema mercadológico. Eu não sou ingênuo de acreditar que um cara que mora no meio do mato, que não tem a menor informação de absolutamente nada, possa entrar no mercado contemporâneo e ser classificado como grande artista. Acho que ser um grande artista está ligado a informação e conceito. Agora, em nenhum momento existe da minha parte nenhuma arrogância com os artistas populares, apenas são coisas distintas.

OP - Seu pai trabalha com os mesmos materiais que você, mas não faz arte. Como você se tornou artista e não artesão?
Efrain – Pela minha história. A minha família mudou para Fortaleza, eu estudei em Fortaleza. Depois me mudei para o Rio, estudei arte aqui. Toda essa rede, essa formação que eu tive, me fez olhar para essas coisas, a tradição, a minha história, a da minha família, mas de um modo completamente outro, crítico e distanciado. É um outro jeito de olhar para as coisas.

OP – Quando a gente olha para o design no mundo inteiro, a gente vê que existe uma admiração pelo artesanato nordestino na decoração, em ambientes sofisticados. Por que o brasileiro em geral não tem essa percepção?
Efrain – Preconceito. Sabe qual? Uma espécie de complexo que o nordestino tem em relação ao artesanato. O mundo inteiro valoriza isso. A Prada usou isso numa coleção e foi ovacionada. A Viviene Westwood usou richelieu, que, pra gente, é superbanal, em uma coleção. Existe um complexo de inferioridade, parece que aquilo não tem valor só porque faz parte do nosso cotidiano. Fico pensando que, se eu morasse no Ceará a vida inteira, talvez meu trabalho fosse diferente. Talvez eu estivesse tão próximo que não conseguisse sentir.

OP – Talvez até o seu reconhecimento fosse outro, não é?
Efrain – O preconceito é uma leitura prévia que as pessoas fazem antes de conhecer. Eu tenho feito muitas exposições internacionais. Domingo (hoje) eu viajo para os Estados Unidos para minha quarta exposição em Seattle. Todas as vezes, meu trabalho tem uma ótima recepção, porque as pessoas não olham com esse olhar preconceituoso, olham como arte, não como artesanal, que tem ligação com cultura popular. Na verdade, para eles, isso é um valor a mais para o trabalho, um valor positivo, não negativo.

OP – Será que é necessário estar em outro país, em outro continente para que o artesanato seja reconhecido como arte? É uma questão de ponto de vista?
Efrain – Mesmo no Brasil, acho que a gente consegue. A pintura da Beatriz Milhazes se refere ao popular. Ela fez alguns trabalhos com rendas, com caju, carnaval que têm super a ver. É pintura, tem relação artesanal, porque é um trabalho supermeticuloso e manual, e ela é uma das maiores pintoras do Brasil. Sem dúvida nenhuma.


Fonte: O Povo 

Mapeando referências culturais

SARA MAIA

Em 1975, iniciou-se um mapeamento da produção de artesanato e literatura de cordel no Interior. Criou-se o Centro de Referências Culturais, da Secretaria de Cultura do Estado (Ceres) - e, com ele, uma geração de grandes pesquisadores da cultura popular

No início, eram dois projetos, um para pesquisar artesanato e outro para o cordel. Era 1975, e o Governo do Estado reuniu um grupo de interessados em cultura popular para viajar pelo Interior e mapear a produção nessas duas áreas. “Havia um grupo de teatro que discutia a realidade e a cultura cearenses, o Grupo Independente de Teatro Amador (Grita), e as pessoas que começaram nesses projetos eram ligadas a ele. O Paulo Lustosa estava assumindo a secretaria de Planejamento. Ele nunca participou diretamente da pesquisa, era mais um coordenador geral. Mas tinha o Oswald Barroso, a Olga Paiva, o José Carlos Matos, o Maurício Albano, fotógrafo, que fez toda a documentação visual das viagens”, conta o professor Edvar Costa.

Edvar entrou no projeto no ano em que ele começou. Ibiapaba e Cariri já haviam sido mapeados. Ele participou do litoral leste, (des)cobrindo a produção artesanal de Cascavel a Aracati. “Ainda nem era Ceres, era o projeto Artesanato. Com o levantamento terminado, foram aplicados questionários. Os dados foram usados em parte, porque não foi feito tudo que era previsto. Isso demandava um tratamento que não se conseguiu na época. Para o cordel, seria uma antologia. Mas, com o material do artesanato, começou a surgir a ideia de um centro de referência”.

O Centro de Referências Culturais (Ceres), da Secretaria de Cultura do Estado, começou com um acervo na rua Solón Pinheiro, em uma propriedade da secretaria. Com um gravador de rolo e uma mesa de edição, foram feitos montados os registros em audiovisual das viagens. Também começaram a montar o acervo fotográfico. Hoje esse material encontra-se no Museu da Imagem e do Som (MIS).

Edvar Costa trabalhou de 1975 a 1980, mas o Ceres continuou existindo. A experiência no Interior possibilitou a formação de pesquisadores e grandes nomes da cultura popular. Rosemberg Cariry tornou-se cineasta e, em sua obra, revisita o sertão. Oswald Barroso fez-se pesquisador, escreveu livros e fundou o Teatro Boca Rica.

Quem também se tornou pesquisador foi Edvar Costa, que hoje é professor da Universidade do Vale do Acaraú, trabalha com história e memória e coordena o Meduc, um grupo de pesquisa de história e memória social da educação e da cultura.

Na época, no entanto, ainda não tinha tradição acadêmica, e ele lembra das disputas que aconteceram. “Se você falasse em pesquisa social, tinha que estar na área da universidade. A gente era um grupo novo, de pessoas jovens. Tinha socióloga, filósofo, mas ninguém com tradição de pesquisa. Houve um embate naquele período, mas esse trabalho possibilitou constituir um grupo que vinha de outros lugares sociais, interessado em estudar as atividades culturais não só para documentação, mas também para utilizar essas informações nos desenvolvimentos de estética e linguagem no teatro, por exemplo. As viagens tiveram muita importância para o Oswald e o José Carlos Matos, que desenvolviam outras atividades”.

Na obra Ceará – Uma Cultura Mestiça, Oswald conta um pouco da experiência. “Na época, eu fazia parte da equipe de pesquisadores do então Centro de Referências Culturais - Ceres, e, como tal, viajava frequentemente pelo Interior cearense. Pesquisando artesanato e literatura de cordel, nossa equipe visitou dezenas de municípios. Porém, como ator e escritor de textos teatrais minha atenção voltou-se, particularmente, para as manifestações cênicas que ia encontrando no caminho: dramas, fandangos, caninhas-verde, danças do coco, danças de São Gonçalo, pastoris, bumbas-meu-boi, congos, bandas cabaçais etc”. Edvar finaliza: “O Ceres foi pequeno, passageiro, mas muito significativo nessa perspectiva”.
(Alinne Rodrigues)


Fonte: O Povo 

Oitenta anos do Poeta Concreto Augusto de Campos

Augusto, Haroldo,Décio e Augusto(jovens), trabalhos de Campos.
Ninguém pode negar que o movimento da poesia concreta alterou profundamente o contexto da poesia brasileira. Pôs idéias e autores em circulação. Procedeu a revisões do nosso passado literário. Colocou problemas e propôs opções. Lembro-me da expressão joyceana verbivocovisual, uma espécie de síntese integrada das dimensões semântica, sonora e visual das palavras. E que permaneceu, ao longo desse tempo todo, no horizonte da produção desses poetas. Isso sem falar nos suportes e nos meios técnicos mais diversos que foram sendo utilizados: livro, revista,jornal, cartaz, objeto,LP, cd, videotexto, holografia, vídeo, internet.

Além disso, o grupo de poetas concretos – Augusto e Haroldo de Campos, Décio Pignatari, José Lino Grunewald e Ronaldo Azeredo –empenhou boa parte de sua atividade teórica na constituição de um repertório de formas poéticas, por meio da revisão crítica de autores e da tradução de uma grande variedade de obras de outros idiomas para o português. Caso de Mallarmé, Ezra Pound, Cummings e James Joyce—principalmente.

62 anos só de poesia

Com 18 anos, Augusto publicou seus primeiros poemas.Foi na Revista Brasileira de Poesia, editada pelo Clube de Poesia, entidade ligada ao pessoal da Geração de 45. Dois anos depois surgiu seu primeiro livro: O Rei menos o Reino (1951),em edição do autor. No ano seguinte, junto com o irmão Haroldo e Décio Pignatari, participou da criação da revista Noigrandes, palavra misteriosa que aparece nos Cantos, de Ezra Pound, decifrada como 'antídoto ao tédio' e dá origem ao grupo que iniciou o movimento da Poesia Concreta no Brasil.

Datam dessa época, a aproximação com os artistas do grupo ruptura (principalmente Waldemar Cordeiro, Geraldo de Barros, Lothar Charroux e Luiz Sacilotto).No segundo número de Noigrandes(1955) publicou poetamenos, uma série de poemas coloridos e dispostos de maneira original na página, inspirados na música de vanguarda de Anton von Webern (1883-1945). Em 1956 e 1957 participou do lançamento oficial da Poesia Concreta na I Exposição Nacional de Arte Concreta (MAM/SP e saguão do MEC-rio). A realização desse evento conseguiu reunir pintores, escultores e poetas, todos unidos em torno de um princípio comum: a arte concreta. Em 1958 participou, com Haroldo e Décio, da redação do Plano-Piloto para Poesia Concreta. Entre outras coisas eles anunciavam o fim do verso como unidade rítmico –formal e propunham uma nova arte geral da palavra. Conforme eles mesmos disseram:”com o poema concreto ocorre o fenômeno da metacomunicação: coincidência e simultaneidade da comunicação verbal e não-verbal, com a nota de que se trata de uma comunicação de formas, de uma estrutura-conteúdo, não da usual comunicação de mensagens”.

Entre 1960 e 67, integrou a equipe de Invenção –que publicou uma página semanal no jornal Correio Paulistano e depois uma revista com o mesmo nome. Durante a década de 1970, Augusto de Campos, uniu-se ao artista plástico Julio Plaza,e lançou dois volumes de 'poemas-objeto', contendo textos tridimensionais, Poemobiles (1974) e Caixa Preta (1975). Dois livros apresentam o básico de sua obra: Viva Vaia – Poesia (1979) e Despoesia (1994). Tem publicado vários livros de ensaios críticos. Atuante crítico de música na década de 1960, foi um dos primeiros a reconhecer o talento poético de Caetano Veloso e Gilberto Gil, em ensaios reunidos no livro No Balanço da Bossa (1968). Atualmente, dedica-se a investigar novos meios para a poesia, como a holografia e a computação gráfica.

Com vocês a palavra do poeta:



Ad Augustum per Angusta

Vou longe. Mar. Amar.

Sempre o mesmo calado.

Tal amor. Calabar.

Traidor e enforcado.



O sol é uma criança

De brilho, que não cresce.

A balança, a Balança:

Um sobe. O outro desce.



Ó remos, onde iremos?

Cortais pólo e equador

Com igual dor. Ó remos?

Oremus. Doloremus.



Ascendo, ascendo à ilha?

O sol, como brilha ante

O mar. Eu sigo adiante,

Pérolas na virilha.



Vou longe. E o Sol não.

Coração, “Sursum corda!”

Sol longe. E eu inclinado.

“Acorda, coração!”



(publicado originalmente em Forum, órgão oficial do C.A. 22 de Agosto)


Diálogo a Dois

“A Angústia, Augusto, esse leão de areia”

Décio Pignatari



A Angústia, Augusto, esse leão de areia
Que se abebera em tuas mãos de tuas mãos
E que desdenha a fronte que lhe ofertas
(Em tuas mãos de tuas mãos por tuas mãos)
E há de chegar paciente ao nervo dos teus olhos,
É o Morto que se fecha em tua pele?
O Expulso do teu corpo no teu corpo?
A Pedra que se rompe dos teus pulsos?
A Areia areia apenas mais o vento?

A Angústia, Pignatari, Oleiro de Ouro,
Esse leão de areia digo este leão
(Ah! O longo olhar sereno em que nos empenhamos,
Que é como se eu me estrangulasse com os olhos)
De sangue:
Eu mesmo, além do espelho.




O Vivo

Não queiras ser mais vivo do que és morto.
As sempre-vivas morrem diariamente
Pisadas por teus pés enquanto nasces.
Não queiras ser mais morto do que és vivo.
As mortas-vivas rompem as mortalhas
Miram-se umas nas outras e retornam
(Seus cabelos azuis, como arrastam o vento!)
Para amassar o pão da própria carne.
Ó vivo-morto que escarnecem as paredes,
Queres ouvir e falas.
Queres morrer e dormes.
Há muito que as espadas
Te atravessando lentamente lado a lado
Partiram tua voz. Sorris.
Queres morrer e morres.


A igreja nova

A antiga capela não bastava.
Mal sobranceava os colmos achatados.
Começou a erigir-se a igreja nova.
Delineara-a o próprio Conselheiro,
sem módulos, sem proporções, sem regras.
Frisos grosseiros e volutas impossíveis
cabriolando
num delírio de curvas incorretas.
Era sua obra-prima.
Ali passava os dias,
sobre os andaimes altos e bailéus bamboantes.
O povo enxameando embaixo
estremecia muita vez ao vê-lo
passar, lentamente,
sobre as tábuas flexuosas e oscilantes,
impassível,
sem um tremor no rosto bronzeado e rígido,
feito uma cariátide errante
sobre o edifício monstruoso.


Dodecassílabos

Estala na mudez universal das coisas
estrídulo tropel de cascos sobre pedras
e naquela assonância ilhada no silêncio
o cataclismo irrompe arrebatadamente.
O doer infernal das folhas urticantes
corta a região maninha das caatingas
fazendo vacilar a marcha dos exércitos
sob uma irradiação de golpes e de tiros.
Por fim tudo se esgota e a situação não muda,
lembrando um bracejar imenso, de tortura,
em longo apelo triste, que parece um choro.
Num prodigalizar inútil de bravura
desaparecem sob as formações calcáreas
as linhas essenciais do crime e da loucura.


Ferida


fer
ida
sem
ferida
tudo
começa
de novo
a cor
cora
a flor
o ir
vai
o rir
rói
o amor
mói
o céu
cai
a dor
dói

Fonte: Portal Literal

Em Tianguá escritora de apenas 13 anos lança seu 1º livro


Com apenas 13 anos de idade, Marilza entra para o seleto grupo dos “escritores tianguaenses” que tem nomes como: João Bosco Gaspar, Valdecy Santos de Abreu, Luiz Gonzaga Bezerra, Amauri Pinto de Carvalho, Albery Nunes, José Ribamar Muniz Feitosa, Joacir Marques,Chico Ocosta, Carlos Roberto Vasconcelos, Cecília Maria da cunha, Raimundo Clarindo dos Santos, etc.

A solenidade aconteceu no CALE HALL em Tianguá, e contou com a presença de autoridades, professores, escritores tianguaenses e amigos. 

Marilza desde seus primeiros anos escolares já demonstrava interesse pela escrita de pequenos textos que soavam em sua imaginação e sempre teve amor pela leitura. Em 2009 escreveu com seu pai uma literatura de cordel, sua primeira experiência na arte de escrever. E agora em 2011, entra para a História como “a mais jovem escritora de Tianguá”.

Em seus textos, ela presa pela preservação do meio ambiente e tem como meta conscientizar a humanidade de que se deve buscar a Deus, valorizando os relacionamentos com o próximo e dando menos importância as coisas materiais.       
“Contos Diversos” é um livro com fábulas cheia de aventuras e histórias com ensinamentos e verdadeiras lições de vida.
Daniel Dennis

Fonte: Ibiapaba Portal de Noticias

É o observador que completa a obra

Em texto pessoal e iconoclasta, a curadora de arte Dodora Guimarães defende que tanto há artesãos fazendo arte quanto grandes artistas fazendo artesanato, usando como exemplo o trabalho de Romero Britto
Foto: Divulgação

Dodora Guimarães
ESPECIAL PARA O POVO

Pra começo de conversa, tem muito artista fazendo artesanato e muito artesão fazendo arte. Exemplos? Francisco Cardoso em Brejo Santo, Maria do Socorro Cândido em Juazeiro do Norte, citando alguns, são grandes artistas, não obstante operarem na tradição do artesanato. Romero Britto, ao contrário, opera no mercado de arte, embora o seu exercício seja o artesanato – veja-se o caráter repetitivo de sua produção e o vazio que a contorna.

Não que o artesanato seja destituído de sentido, de forma alguma, pensemos nas mulheres de Atenas. O exemplo é apenas para lembrar que existem muitos artistas afamados que só repetem fórmulas. E arte é invenção. Invenção que pede atenção. Inclusive de público. Afinal, é o observador que completa a obra (de arte), como apontou Marcel Duchamp.

Outro bruxo moderno, o escritor cearense José Alcides Pinto, dizia que poesia é uma casa em pé, sem tijolos. Ou seja: a ideia da casa construída pela evidência do poeta. Independente de material ou suporte, de bula ou cartão de apresentação. Arte é o que nos pega pelo frio na barriga, o que arrepia.


Em dezembro de 2010 inauguramos no Sobrado Dr. José Lourenço uma bela exposição do artesanato tradicional do Ceará, focada em quatro polos trabalhados pelo Programa de valorização do artesanato tradicional (Promoart), empreendido pelo Ministério da Cultura, por meio do Museu do Folclore Edson Carneiro. Estavam ali representados a cerâmica de Moita Redonda – Cascavel; a areia colorida de Majorlândia – Aracati; labirinto de Morro Pintado e Ibicuitaba – Icapuí; e as artes de Juazeiro do Norte, concentradas no Centro de Cultura Mestre Noza. “Artes que Renovam a Tradição” intitulava essa mostra, que reunia um conjunto memorável do artesanato utilitário e criativo dos nossos mestres da atualidade.

Os retratos em garrafas de areia colorida de Lídio, as esculturas de Manoel Graciano, Francisco Cardoso, José Cordeiro e Raimundo Caetano, do mesmo modo que as placas de cerâmica pintada de Maria Cândido e de Maria de Lourdes Cândido reforçam o que escrevemos lá em cima, são pura arte. Maravilhas que podem conviver dignamente com obras de artistas de qualquer época ou lugar.

Coincidentemente e por uma causa justa (17 de janeiro - Dia do Ceará) realizamos no Sobrado Dr. José Lourenço uma exposição coletiva (Expô Relâmpago – Com o Ceará no Coração) de artistas da atualidade. Por força das circunstâncias as duas exposições ficaram frente-a-frente, compartilhando o mesmo espaço. Foi muito interessante ver este espelhamento. Ambas as exposições foram beneficiadas com o confronto.

Gosto de coisas corajosas. Aprecio sobremaneira os atos inaugurais. Em 1995, fizemos no Palácio da Abolição a exposição Universo Cariri, que abordava as diversas expressões artísticas feitas no Cariri ou de autoria de artistas da região. Foi enriquecedor ver o escultor Nino emparelhado com esculturas de Sérvulo Esmeraldo, Mestre Noza ao lado de Aldemir Martins etc. Essa exposição nos deu o norte para a mostra Admiráveis Belezas do Ceará ou o Desabusado Mundo da Cultura Popular, que, anos depois, inauguraria o Memorial da Cultura Cearense e o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. A primeira Bienal do Cariri (2001) e as quatro edições da Mostra Cariri tiveram esse mesmo caráter, avançado e transgressor. É isso, jamais descarto a perspectiva histórica.

Dodora Guimarães é formada em Comunicação Social, com Especialização em Teorias da Comunicação e Imagem, ambos pela UFC. Tem realizado, a partir de 1983, dezenas de exposições. Coautora do livro Ceará Feito a Mão.