segunda-feira, 16 de maio de 2011

Mecenato de fã - Financiamento colaborativo da cultura

Longe de editais e balcões de empresas, em meio às pequenas revoluções cotidianas da internet, os sites de financiamento colaborativo chegam como uma alternativa


E se você pudesse viajar através de desenhos? Arrumar as malas, embarcar em um avião, visitar lugares novos, conversar com outras pessoas, fazer compras, provar novos pratos, interagir com o mundo ao seu redor, participar de eventos, tirar uma foto para a eternidade e voltar pra casa cheio de boas lembranças… mesmo sem sair de casa! Essa é a proposta do Diário de Bordo Ilustrado.

O parágrafo acima faz parte da apresentação do projeto que a ilustradora potiguar Amanda Karolina inscreveu no Catarse, uma plataforma digital de financiamento colaborativo - também conhecida como crowdfunding - em que o público é quem patrocina os projetos inscritos. Com funciona? Num comparação forçada, assemelha-se a um site de compra coletiva, só produto não é material, mas cultural e não beneficia apenas quem fez o investimento.

"Começou como brincadeira. Postei no Twitter que queria ir para o Youpix (festival de cultura ligada à internet, realizado em abril deste ano em São Paulo) e eles (do site Catarse) sugeriram que eu fizesse um projeto", narra Amanda, que viabilizou sua ida ao festival transformando a viagem em um projeto de diário ilustrado da aventura.

"Conseguindo o financiamento, eu iria viajar e coletar referências, fotos e começar a desenhar tudo que vi". Em um mês no ar, a proposta de Amanda teve 56 micropatrocinadores e arrecadou R$2.345, mais que o valor pedido pelo projeto. Quem ajuda sempre recebe algum tipo de recompensa. Neste caso, além acessarem o material publicado no blog diariodebordoilustrado.blogspot.com, os financiadores receberão cartões postais e telas com ilustrações exclusivas da autora. Já as doações a projetos que não atingem a cota necessária para a realização são restituídas aos doadores.

Daniel Weinmann, de Porto Alegre (RS), um dos idealizadores do Catarse, explica que o site fica com 5% do arrecadado em cada projeto bem sucedido (que conseguiu completar o financiamento). Criado em fevereiro, o site recebeu mais de 300 projetos, dos quais 35 foram ao ar - eles passam por uma triagem de acordo com a viabilidade e qualidade da proposta. Destes, 18 encerraram o período de doação, 10 deles sendo bem sucedidos e arrecadando um total de R$ 82 mil.

"Tivemos receita de R$ 4 mil em 4 meses (relativo aos 5% do site). É muito pouco", revela outro sócio do Catarse, Diego Reeberg. Ele no entanto é otimista. "Ao todo, foram 1.770 doações, de 1.462 pessoas, o que significa que tem gente apoiando varias propostas e, das propostas inscritas, quase 60% foram bem sucedidas", destaca, adiantando que o site está expandindo o raio de atuação, estando em fase de fusão com o Multidão, site carioca que funciona nos mesmos moldes.

O raio de atuação do site ainda é bastante limitado. Para se ter uma ideia, o projeto de Amanda é o único inscrito da região Nordeste. "A maioria dos projetos são do Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre, que são as cidades onde trabalhamos mais a divulgação", explica Diego. Toda a propaganda do site é feita na internet, principalmente por meio de mídias sociais e sem custo.

Coisa de Fã
Uma outra experiência de financiamento colaborativo da cultura acontece há um pouco mais de tempo no meio musical. Na tentativa de conseguir levar para o Rio de Janeiro shows de artistas em turnês internacionais, o site queremos.com.br mobiliza os fãs a bancarem a produção dos shows.

Organizado pelos cariocas Bruno Natal, Tiago Lins, Felipe Continentino, Pedro Seiler, Pedro Garcia e Lucas Bori, o site identifica a possibilidade da realização de um show, levanta os custos de produção e lançam aos fãs. Um show que custa R$38 mil, como foi o caso do inglês Jamie Lidell, que se apresentou no último dia 6 no Circo Voador. O valor foi dividido em 190 parcelas de R$200.

Quem compra a parcela, além de ter o ingresso garantido, tem a possibilidade de ter o dinheiro reembolsado. É que após completar o valor do show, o site dá início a venda normal de ingressos. O valor do reembolso é proporcional ao arrecadado com essa venda. "Chamamos essas unidades de ingresso-reembolsável. Com o valor mínimo necessário assegurado, o evento é confirmado e inicia-se a venda de ingressos normais para o público", explicam.

Nesses moldes, o site produziu shows de Miike Snow, LCD Soundsystem, Mayer Hawthorne, Vampire Weekend, Two Door Cinema Club e Belle and Sebastian.

Crowdfunding analógico
E para quem pensa que o modelo não funcionaria no Ceará, em Fortaleza, há alguns anos atrás, uma produtora teve uma experiência semelhante. "Muito antes disso (do surgimento de sites de financiamento colaborativo) a gente fazia isso, só que de forma analógica", brinca o produtor cultural cearense André Fernandes que se diz empolgado com as possibilidades da nova ferramenta.

Ele conta que, em 2007, produziu um show do grupo Teatro Mágico para poucas pessoas na boate Órbita. Na época, a banda estava no auge da carreira. "Fui para Feira Música Brasil, onde conheci o Gustavo Anitelli, que era irmão do cantor da banda (Fernando Anitelli). A gente ficou ´brother´, então um dia pensei em trazê-los", lembra.

"Fechei com eles, mas eu achava que ninguém conhecia. Ai pensei, e agora, como eu vou vender isso?", continua, André. A solução também veio da internet, mas de forma menos arrojada e mais braçal: ele achou uma comunidade no Orkut com mais de 6 mil usuários de Fortaleza. Ai ficou fácil. "Eu basicamente não divulguei o show. Eu estava vendendo para pessoas que eu sabia que iam comprar aquilo", finaliza.

Opções na rede
www.catarse.me
www.multidao.art.br
www.movere.me
www.bepart.com.br
www.queremos.com.br

FÁBIO MARQUES
ESPECIAL PARA O CADERNO 3

Fonte: Diário do Nordeste

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